Bela surpresa: “Remições do Rio Negro”

Por Inácio Araújo

Uma vantagem irrecusável de Tiradentes é que o festival traz coisas que passariam despercebidas sob o nariz dos demais festivais brasileiros.

“Remições do Rio Negro”, documentário amazonense, é um exemplo. A diretora que estava aqui se chama Fernanda Bizarria.

O que está tocado ali? Primeiro um velho padre salesiano, Casimiro, bem velho. Um lituano. Lamenta seus predecessores na missão: não entendiam nada.

Com efeito: mandavam os índios se livrarem de seu passado como coisa do diabo. A Igreja é perversa, amigo. Não é pouco, não. Nem sempre. Mas a base é essa.

Depois do padre, vamos aos índios. Ruínas. Há aquele revoltado por ter sido separado de sua cultura, há o que tenta entender o branco por sua essência de exploradores (ou capitalistas, tanto faz). Em vista disso ele quer é a parte dele.

Há aquele que tenta desesperadamente se integrar ao mundo branco. Talvez seja o mais feliz deles. Mas é uma felicidade tão torta que dá vontade de chorar.

São desterrados. Os filmes de época (governos Vargas e Juscelino) são quietamente eloquentes: aqueles indiozinhos separados. Homem pra cá, mulher pra lá, cabelos cortados. Uniformes escolares. Alguém notou: parece campo de concentração.

Nenhuma expressão feliz.

Mas o filme não é mera condenação dos salesianos. Existe a fatalidade do encontro com o branco e o desarranjo que causa. Existe uma parte de ignorância e outra (é a mesma) de prepotência cristã. Existe a violência de todo contato, a necessidade de ocupação das fronteiras, as riquezas, o diabo a quatro que fazem do índio “uma questão”.

No fim, o filme propõe o encontro do índio mais bem aculturado com o padre Casimiro. Encontro terrível.

Notável figura, o padre. Ele carrega nas costas toda a brutalidade salesiana, de que não partilha muito, não hoje em todo caso.

Encontro constrangido da parte do padre. Tanto mais que o índio se derrama todo.

Mas o padre sabe que tudo é ruína. Estamos sobre ruínas. As missões salesianas, os índios, a vida dele próprio.

Fantástico: não há tom crítico. Só mostrar. Mostrar.

Um triunfo que nunca mais veremos, porque as TVs do Brasil são o que são e só mostram porcaria.

Uma pena.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo