Beleza cacheada

Ilustração: Reclining Figure (1951), localizada no exterior do Museu Fitzwilliam, em Cambridge.

Um rosto cavoucado pelo desterro da piedade divina. A mandíbula saliente inibia um traço que lembrava lábios, cercado por dentes disformes. Enormes cílios tocavam a bochecha ressequida, escondendo um dos olhos. O outro, parecia compensar a falta daquele. Saltado, quase nas órbitas do meio da testa. Um rosto que despertava horror e susto. Ao ver aquele homem, cujas mãos eram pequenos pedaços que mal lembravam o todo que segura um copo, chaves ou levanta o polegar, uma criança sentada no colo da mãe escondeu o rosto em seus ombros. Inevitável o constrangimento.

Inevitável a compaixão. Ele olhou para trás como quem queria evitar o susto da criança ou a angústia de mais uma vez ver revelada no rosto das pessoas sua feiura inconteste. Encontrou meus olhos sonolentos, que há poucos instantes buscava o outro lado do mundo na janela do ônibus. Sorri para ele, como quem pede desculpas em disfarçar meu espanto. Mas acho que ele entendeu que meu olhar dizia que nem sempre as coisas acontecem como planejamos, nossos pais, o Governo, Santo Agostinho, os anjos. Eu mesma, se pudesse ter planejado melhor, teria nascido com outra cara.

Acho que é assim com a maioria dos que não confundem o brilho ofuscante do anel com a utilidade dos dedos. A beleza só serve quando vem agregada à ignorância do seu impacto. Se o belo sabe que é belo, torna-se enfadonho, óbvio. Como doce que passa do ponto. Beleza demais, perfeição demais não existe e causa enjoo aos olhos.

Falando em ignorantes, dia desses no aniversário de um amigo, conheci uma mulher absolutamente linda tanto quanto era indiferente à sua beleza. E não era nada forçado. Ela não sabe – ou ao menos não nutre o egotismo ou qualquer coisa que possa descambar para o velho e bom ditado de “cagar na pia”. Tem coisas mais importantes para fazer na vida além de cultuar o espelho. E como é bom olhar para o belo inocente. Para o belo que nos presenteia com a simplicidade, com a poesia revelada num sorriso tímido, quase de discórdia, quase que pedindo desculpas por ser belo e desconhecer isso.

Não sei como encaixar nesse texto o fato de que cortei o cabelo recentemente. Sou agora um misto de poodle e leoa. Ele não voa, balança em bloco. O brilho do negro se esconde nas curvas dos cachos. Molhado é pouco, seco é uma alegoria. Acreditem, tem lugares e pessoas que olham feio para você, porque você assume seu cabelo crespo. Elas te olham como se você não conhecesse aquela tortura chinesa chamada secador de cabelo e chapinha (coisa mais brega). É o preço de ser eu mesma: um intermédio entre a compreensão do feio e do belo, principalmente quando a moldura é o meu cabelo.

Jornalista formada pela UFRN desde 2000. Trabalhou em veículos como Diário de Natal, Mult TV!, Novo Jornal, Tribuna do Norte e em assessorias de comunicação e imprensa política durante muitos anos. Em 2013 lançou pelo Caravela Selo Cultural o ensaio biográfico, "Navarro - um anjo feito sereno", editado em 2014 pela Edufrn. Atualmente é jornalista free-lancer. Fanpage: bichoesquisito; insta @bicho_esquisito [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Nivaldete Ferreira 5 de Julho de 2016 21:52

    Bonito, Sheyla, seu texto. E bonito viver a cacheza dos cabelos. A chapinha uniformizou as cabeças…. E quanto à perfeição – rigorosamente perfeita- , ah, ela impede a criação. Está saturada de si. Você acertou. O SP também acertou, chamando você.

  2. Sergio Vilar 5 de Julho de 2016 21:57

    Nivaldete, não lembro quem falou que “deixei as mulheres bonitas para os homens sem imaginação”. Lembrei dessa frase quando vc citou o “rigorosamente perfeita”. E Sheyla é massa!

  3. Deise Barcelos 7 de Julho de 2016 18:20

    Sheyla é poesia e inspiração puras!

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