Bem intencionado porém preconceituoso

Amigos e amigas:

Li o texto de Plinio Marcos aqui reproduzido. Considero Plinio um bom dramaturgo, malgrado alguns toques tardo-naturalistas em suas primeiras peças. Penso que o Naturalismo, na época em que Plinio escreveu, já tinha virado recurso publicitário banal (exibição de pelos pubianos e por aí) mas ele sabia escrever diálogos e construir personagens.

Na crônica aqui reproduzida, espanta a carga violenta de preconceitos e ressentimento que Plinio traz. Dá a impressão de que o Mal vem da universidade e da classe média conhecedora de Europa (ou de outros continentes). Visitar o Louvre (o Prado, o British, o Smithsonian, a Tate, o Antiguidades do Cairo, o Holocausto de Tel Aviv, o Ouro de Lima e museus de igual porte), canso de repetir, deveria ser incluído entre os direitos humanos básicos e fundamentais. Gostaria muito que todos os entregadores de pizzas e todas as empregadas domésticas do Brasil – e de outros países – pudessem fazer isso uma ou muitas vezes na vida. Eles já são pessoas dignas sem essa experiência. A dignidade em nada seria prejudicada com a visão de Velásquez ou Leonardo, ela só aumentaria.

Além do preconceito odioso contra universidade e classe média (não sei a que classe Plinio pensava que pertencia! lumpesinato não publica livros nem escreve na grande imprensa…), há uma ingenuidade assombrosa: quer dizer que, antes do rapaz bem intencionado, a escola de samba era puro povo, sem nenhum traficante no pedaço? Traficantes são empresários internacionais.
Bons escritores têm momentos péssimos. É o caso. Os momentos ótimos não se perdem. Mas não podemos confundir uns com outros.

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Nina Rizzi 30 de abril de 2010 11:20

    opa! como não, como não?! rsrsrs…

  2. Marcos Silva 30 de abril de 2010 11:18

    Nina:

    E eu? E eu?

    Marcos Silva

  3. Nina Rizzi 30 de abril de 2010 11:12

    Marcos, o mac e o masp já foram minha segunda casa, quando ainda morava em sp. faz tempo, a última vez que estive aí (nos museus), foi quando fui à oca ver a exposição de picasso. e continuei a preferir o masp.

    em julho, aproveitando as férias escolares, talvez vá visitar minha mãe, e se for mesmo, claro que o mac e o masp estarão no roteiro.

    um beijo 🙂

  4. Marcos Silva 30 de abril de 2010 10:13

    Nina:

    A beleza de seu texto já é um jardim.
    Sim, a grande arte precisa ser para todos, mesmo que haja dificuldades iniciais na percepção de sua grandeza – nada na vida é compreensível de cara. Desconfio que meu primeiro estalo nessa área foi quando vi reproduções de Van Gogh, devia ter uns 12 anos. E você citou alguns dos fazedores de imagens que mais prezo, como Goeldi – Newton Navarro fez atelier de gravura com ele, ponto para nosso desenhista.
    A burguesia paulista, nos anos 40/50, juntou boa arte que foi parar nuns museus daqui – MAC, MASP, Pinacoteca do estado… Tem De Chirico, Modigliani, Picasso, Matisse, Miró, Cézanne, Segall, Almeida Jr., Tarsila, Ismael Nery… Venha ser feliz aqui também.
    Beijos, beijos, beijos:

  5. Nina Rizzi 30 de abril de 2010 1:01

    marcos, destaco esse trecho de seu texto:

    “Visitar o Louvre (o Prado, o British, o Smithsonian, a Tate, o Antiguidades do Cairo, o Holocausto de Tel Aviv, o Ouro de Lima e museus de igual porte), canso de repetir, deveria ser incluído entre os direitos humanos básicos e fundamentais. Gostaria muito que todos os entregadores de pizzas e todas as empregadas domésticas do Brasil – e de outros países – pudessem fazer isso uma ou muitas vezes na vida. Eles já são pessoas dignas sem essa experiência. A dignidade em nada seria prejudicada com a visão de Velásquez ou Leonardo, ela só aumentaria.”

    quando achei no meio da rua “obras incompletas de nietzsche”, numa edição ilustrada com belíssimas obras de arte. eu havia acabado de me mudar do campo pra uma periferia no interior paulista e me sentia o ser mais estranho do mundo por não ter o mínimo “talento” praquela vida que a maioria ali levava, e o achado foi um oásis naquele deserto. eu tinha doze anos e quase nada entendi do nietszche a não ser o pouco que absorvi do poema “só poeta, só louco”; mas as imagens, o francis bacon, o chirico, as gravuras de goeldi… aquilo me fez perceber que eu não estava sozinha no mundo e que, sim, podia haver irmandade entre as gentes. o que, evidentemente, mudou os rumos da minha história.

    não conheço esses lugares, mas sim, deveria estar na minha bolsa-dignidade.

    gosto do plínio marcos, e partilho seu texto. e, às vezes, só às vezes, o melhor jardim pode ser o deserto.

    um beijo.

  6. Marcos Silva 29 de abril de 2010 14:18

    João:

    Obrigado pelo comentário, tb gosto muito da obra dele. Não gostei, todavia, daquele texto específico, daí minha fala.
    Abraços:

    Marcos

  7. João da Mata 29 de abril de 2010 12:20

    Marcos, amigo querido

    Gosto muito do Plinio e o seu lugar na nossa dramaturgia é unico. Fez história. O encontrei muitas vezes nas filas do teatro e do cinema vendendo seus livros. Suas peças são maravilhosase e atuais. Imagine isso em plena repressão.

    Assisti certa vez em S. Paulo uma palestra do Plinio e nunca esqueci. Foi uma porrada. Ouvi com entusiamo as palavras de alguem corajoso e coerente. Muito inteligente me mostrou coisas que não conhecia.
    Via algumas de suas peças e adorei

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