Bem-Vindos à nau dos Loucos

“ Um louco, isto causa horror! E você leitor, em que categoria se encaixa ? Na dos tolos ou na dos loucos? Tenho certeza que se pudesse escolher preferiria a ultima condição”. G. Flaubert.

Protegei-me Santa Dymphne:

Escrevo esse artigo sob o impacto da emoção, ao som da ária da loucura da ópera Lucia di Lammemoor, de Gaetano Donizetti. A loucura reivindica para si o estar mais próxima da razão e da felicidade. No final do século XV, Bosch pinta a “Extração da Pedra da loucura” (foto), segundo a crença de que a loucura é uma pedra infiltrada na cabeça. No século seguinte Brueghel o velho pinta vários quadros com o tema da loucura, entre eles “O Burro na escola” e “Margareth a Louca”. Tenho o maior respeito pelos loucos e principalmente daqueles que fizeram da loucura uma arte de escrever, pintar e musicar. Infelizmente são muito poucos e não podemos tratar a loucura de forma romântica, ou com o cinismo poético de um Erasmo de Rotterdam: “ só a loucura pode dizer a verdade”.

A loucura é triste. É como uma urtiga que não nos deixa queimando. Alguns preferiram por si só procurar as portas do manicômio. O enclausuramento é uma morte dupla e a tendência é fechar os manicômios e deixar todos nas ruas. Até o séc. XIX, o mal, só pode ser castigado se for trazido à luz do dia. Os loucos são monstros que precisam ser mostrados. O internamento oculta o desatino e trai a vergonha que ele suscita ( História da Loucura – Michel Foucault )

A Loucura do homem entregue aos poderes do inumano, do dia-a-dia e da vida moderna nos faz procurar saídas às mais diferentes possíveis: nas drogas, no silencio ou nos exílios voluntários e na religião onde a loucura é o ponto mais baixo da humanidade ao qual Deus consentiu. “Amo o amor dos suicidas”. Lembro enternecido dos meus próximos Roland Barthes, Florbela Espanca, Santos Dumont, Paulo Lafargue, Sylvia Plath e tantos outros queridos que optaram pelo suicídio.
O poeta Ferreira Gullar já defendeu a clausura e foi duramente criticado. Gullar Mente e Sente. Atacam e novamente. Emaranhadamente. O poema é sujo. A vida é suja. Bumbas –meus – boi. Muitas vozes – matraca. Luta corporal entre contrários. “Uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém fundo sem fundo”. Ser contraditório não é opção é ser – próprio da loucura. Devaneios ao lusco-fusco da existência. A cidade onde mora talvez não exista. O que nos faz viver o que nos causa dor existe nela e fora. A claridade escurece e a memória surge de uma autobiografia inventada. Nos Silogeus carcaças e nos grupos, convenções.

Penso quão longe estamos da sabedoria e da beleza, mãe de toda alegria e poesia. A coragem em corpos sem ossatura. No interior escuridão. Seres sempre eclipsados. Uma cidade em ruínas ofuscadas pela luz branca. De tão nítido irreal (idade). Nos dias tão só desalento, só (a loucura ) para fugir do cotidiano da miséria em que vivemos.

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