Besouro


Assisti agora há pouco Besouro. Fui com um misto de entusiasmo e cautela. Pratiquei capoeira por oito anos até o jornalismo me devorar. Sinto uma saudade enorme. A precaução quanto ao filme foi o orçamento: R$ 10 milhas. É muita grana. E quando a esmola é grande, o cinéfilo desconfia.

A figura de Besouro Mangangá, como é conhecido na capoeira, é quase lendária. E o filme conseguiu preservar essa imagem de forma satisfatória. Os efeitos de voos que lembram o péssimo O Tigre e o Dragão, a relação dele com o candomblé e a pecha de homem de corpo fechado colaboraram para que esse estigma permanecesse.

A crítica recai na exploração minguada da história de Besouro. Quando houve foi por meio de narração. Me soa uma preguiçosa intervenção de quem não conseguiu encaixar no enredo, no diálogo. Mas o pior foi ver a capoeira daquele início de século totalmente desvirtuada. Os toques de berimbau não existem na capoeira. Uma única vez foi respeitado um toque verdadeiro de capoeira: quando o Quero-Quero jogou para o coronel assistir.

Parece regra: filme de orçamentos gordos desbancam para o blockbuster. Houvesse um mínimo de pesquisa evitariam o erro grosseiro. O próprio protagonista é professor de capoeira. Saberia explicar. Poderiam ter explorado mais a capoeira angola, mais difundida à época. A capoeira jogada no filme é a regional, criada somente em 1928 por mestre Bimba.

Ainda assim, é um filme instigante, com lances de câmara ousados, fotografia respeitável e roteiro paupérrimo. Muito mais um filme útil para que o Brasil conheça mais da história da capoeira e de Besouro Mangangá. E não poderia ser diferente. O diretor, João Daniel Tikhomiroff, coleciona bons filmes publicitários.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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