Bestas

Por Carol Bensimon
BLOG DA COMPANHIA

Na semana em que uma cruz gamada apareceu nos fundos de uma piscina do interior catarinense, eu estava lendo HHhH. De pronto lembrei de um caso de 2009 envolvendo suásticas, piscina, mansão na Gávea e festa da Adidas. Acho que a história terminou com um pedido padrão de desculpas por parte da empresa que alugou o local. Também lembrei do meu choque ao ver, em um evento militar de Jaraguá do Sul, Santa Catarina, réplicas de uniformes da SS sendo vendidos com a maior naturalidade. O dono da piscina com a enorme suástica, essa da semana passada, é professor de História. Talvez isso tenha me assustado mais do que qualquer outra informação sobre o caso (inclusive a de que a investigação não será levada adiante). Todas essas três histórias parecem ter um tom anedótico, o que condiz bem pouco com a desumanidade do regime que os protagonistas das anedotas, de algum modo incompreensível para mim, vangloriam.

HHhH, escrito pelo francês Laurent Binet, não tem nada de anedótico (mas às vezes de farsesco, talvez?). O romance ganhou o prestigiado Goncourt na categoria para autores estreantes, em 2010. Ao dizer que HHhH é um romance, tenho medo de estar fazendo tudo o que Binet não queria que fizessem, ou seja, considerar a obra sobre o oficial nazista Reinhard Heydrich (o açougueiro de Praga, a besta loira etc.) e os dois paraquedistas resistentes da Tchecoslováquia uma peça de ficção. Por outro lado, não posso duvidar em momento algum que Binet sabia exatamente onde estava se metendo ao construir uma narrativa que se vale, em igual medida, dos fatos históricos e de uma reflexão sobre a gênese/montagem dessa narrativa.

Não sou uma grande leitora de livros que tratam, em parte, do próprio livro que estamos segurando nas mãos, alguém que o escreve e cujo processo acompanhamos, permitindo assim que a trama — a trama principal — ganhe muito mais camadas de significação etc. Em geral, esses livros me deixam bocejando e eu acabo por abandoná-los sem remorso, convencida de que a crença do próprio autor naquela trama “engenhosa” é visível demais (daí vem a vergonha alheia), e de que sequer os personagens da obra em questão devem acreditar em sua própria existência.

Alguém pode argumentar que essa vem a ser precisamente a intenção de uma obra desse tipo: escancarar o que há de artificial na linguagem e na estrutura usual do romance. Mas uma narrativa tão bem acabada e de efeito tão poderoso como HHhH parece provar que ver a máquina por dentro não deve diminuir o efeito dramático da leitura (como muitos livros que se debruçam sobre si mesmo acabam fazendo), mas, ao contrário, deve aumentar esse efeito.

Talvez eu precise me explicar melhor. Nos capítulos curtos do romance de Binet, há uma oscilação muito marcada entre 1) fatos históricos e 2) tentativas, vacilos, questionamentos sobre como organizar esses fatos históricos, em resumo, sobre que romance escrever. Mas o fato de o autor estar, em pessoa, escancarando seu processo de pesquisa ou refletindo sobre como apresentar tal figura histórica não faz com que, dez linhas depois, o monstruoso Heydrich entre em cena e deixe de nos convencer de que ele está ali, real, que ele é este, que aquilo que se desenrola aconteceu daquela maneira etc. Em resumo, a alternância entre a suspensão da descrença e a descrença generalizada é conduzida de modo magistral.

Particularmente engraçada e eficaz é a maneira como Binet joga com obras que tratam do mesmo momento histórico (As Benevolentes, de Jonathan Littell, é citado, assim como uma série de telefilmes, documentários e romances obscuros); ele rejeita os mecanismos dessas obras, classificando-as como fantasiosas e imprecisas segundo o rigor da História e, ao fazer isso, digamos que o autor acaba por legitimar sua própria obra em construção (como a obra precisa, a obra exata, a obra real). Ao mesmo tempo, várias passagens do texto parecem estar lá para provar o quanto a História está cheia de contradições e lacunas, injetando em HHhH um espírito inquieto que questiona quase tudo, menos a crueldade dos oficiais nazistas. De maneira que, na orelha do livro, Laurent Binet está lá, sorrindo, olhando de baixo para cima como quem diz: sabe aquela diferença entre romance e História? Pois é, acontece que não é bem assim.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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