A notícia chegou quando anoiteceu

BUM! BUM! BUM! Toca o surdo. “Silêncio, a sambista está dormindo. Ela foi, mas foi sorrindo…é mais uma que vai sem dizer adeus!”. É assim que me despeço de Beth Carvalho. Sim, a roqueira aqui tem um pé no samba! Um pé não, quem sabe os dois!

Minha memória afetiva com música é um mundo de histórias e, nele, entra o samba de Beth Carvalho, exatamente em uma época que, para ouvir música, em minha casa humilde na Vila Ré, zona Leste de São Paulo, tinha que ter um radinho de pilha ou uma vitrola (coisa que não tínhamos nos anos 1970).

As TVs, antes de abrir a programação, ligavam o sinal com música, umas linhazinhas coloridas apareciam na tela e dá-lhe samba. (Acho que já escrevi sobre isso em outra vez!). E samba vinha em três momentos: sempre ao acordar e também para fazer faxina aos sábados, quando minha mãe estava em casa.

Conforme íamos crescendo e a faxina passou a fazer parte de minha vida, aos 10, 11, 12 anos, o samba veio junto. Assim vieram as vozes da Beth Carvalho, João Nogueira, Agepê, Martinho da Vila, Noite Ilustrada e toda a poesia de Vinícius de Moraes.

Sofrer era outro momento que fazia do samba algo muito vivo em minha formação. Só que não era um sofrer qualquer.  Era o sofrer que vinha exatamente desse jeito: “chorei, não procurei esconder, todos viram, fingiram […], ali onde eu chorei, qualquer um chorava, dar a volta por cima, quero ver quem dava!”…e como se dava a volta por cima lá em casa!!! (Acredito que até hoje é assim).

Mandar a tristeza embora

Tristeza passava perto. Tristeza passava longe, porque minha mãe, mulher de fibra, não dava o braço a torcer. Nada de cair e se esfolar. Era no salto alto que ela vencia as barreiras de ser mãe solteira, trabalhar feito louca e sustentar os filhos sozinha!

Música era um sinal para esconder tristeza, superar a dor e seguir em frente, “desde que o samba é samba” e lá em casa não era diferente. A gente cantava e “mandava a tristeza embora”, vivendo, muitas vezes, com um baita sorriso na cara.

Andança foi a música mais intensa de Beth Carvalho, principalmente nos anos em que as tias Rose, Elzenir e Célia, vindas do Ceará, começaram a alegrar nossa casa da Rua Impatá. Quando a turma de Juazeiro aparecia, Tia Fantinha, Tia Zizi, Tio Aldemir, tio Amauri, as amigas de minhas tias Marleide, Marileude, Marilac e Marileide (nossa eterna Fafia) e minha prima Christianne, sempre tinha uma música para fazer parte da trilha sonora.

Era muita risada, muita gente falando alto e ao mesmo tempo (coisa de Sobreira e mais ainda de cearense), muita poesia, muitas histórias. Lembro-me das amigas de minhas tias cantando.

Ah, como eu queria um segundinho da vida daquela vida. Sentir novamente o tom, o som, a parte de “só o amor me ensina onde vou chegar”, para dizer que “vou festejar” um pouco do ar de minha infância.

Por isso, “Não deixe nada pra depois, é a saudade que me diz que ainda é tempo pra viver feliz”, mesmo com essa aguinha salgada que teima em ficar no canto do olho.

A sambista está dormindo

Andança ainda lembra o ponto exato que me reconheci como coletivo, como gente em movimento.

Em 1980, estudando na Escola Estadual Caetano de Campus, espaço educacional ainda renomado na capital paulistana, e onde estudei até minha transferência para o Ceará, fui com a “turma” para um festival de música organizado por escolas. A mente teima em lembrar-se do bairro onde um circo armado serviu de espaço para tantos jovens.

Entre as músicas tocadas, Andança foi a que levantou os participantes, fazendo ressoar um coro que deu luz à minha participação no movimento estudantil, inicialmente, como a novata, que não sabia nada, que vivia no mundo da lua, até minhas experiências em Fortaleza, quando era aluna do Curso de Letras e Andança era um dos lemas de quem ia ver o Por do Sol na Ponte Metálica (com os sempre amigos da Ponte, Os Coites e muitos desconhecidos que apareciam com um violão para fazer do espetáculo de aplaudir a lua algo mais politizado!).

Sinto falta das rádios FMs de minha época em Fortaleza. Com certeza, uma hora dessas, a programação teria sido suspensa, para um “Especial Beth Carvalho”, uma hora para não “passar em branco”.

Querendo ou não o samba trilhou caminhos com um quê de não acabou (aquele sonho…lembram dele?).  A Beth foi…mas “iremos achar o tom,  um acorde com lindo som e fazer com que fique bom outra vez o nosso cantar. E a gente vai ser feliz. Olha nós outra vez no ar. O show tem que continuar”

BUM! BUM! BUM! Toca o surdo. “Silêncio, a sambista está dormindo. Ela foi, mas foi sorrindo…é mais uma que vai sem dizer adeus!”.

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