Bibliofilia: uma patologia!

Desde criança tenho paixão por livros. Aprendi a ingressar numa biblioteca como quem adentra um templo religioso. Minha paixão pelo livro é tanta que me atrevi a escrever, ceta vez, alguns ensaios esquecidos sobre colecionadores de livros e algumas grandes bibliotecas da terrinha ensolarada.

Hoje, acredito ter conseguido substituir (ou mitigar) o apreço e o fetiche pelo objeto-livro, colocando em seu lugar o evidente e obrigatório fator-leitura. E tenho inúmeras razões para isso. E todas são lógicas e saudáveis.

Acredito que, com algumas exceções, como a do saudoso José Mindlin ou a de Vicente Serejo, que sempre conheceram o valor físico e intelectual de cada um de seus livros, poucos deveriam guardar grandes quantidades de livros em suas casas e apartamentos particulares.

Para alguns, isso pode se transformar numa grande maldição…

Acredito que deveriam existir muitas mais, maiores e melhores bibliotecas públicas, equipadas e prestando serviços à altura das necessidades do público leitor das cidades. Que dó me dá, por exemplo, em saber como estão as do RN. Que dó me atinge quando me apercebo da grande ausência dos poderes públicos no que atine a essa matéria. É…são os poderes iletrados….

Mas, voltando à constatação de que as bibliotecas particulares, com poucas exceções, deveriam ser menores, lembro-me de algumas que vi e que vejo e que me mostram, realmente, o lado patológico dos formadores dos acervos. Gente que ajunta livros para preencher um buraco interior que nunca será preenchido…

Eu tenho hoje a nítida convicção de que todo colecionismo tem um lado patológico, que às vezes se traduz em algo positivo, mas, às vezes, traz mais perturbações do que benefícios. Falo, em tratando do colecionismo de livros, principalmente daqueles doidelos que compram livros por kilogramas (um certo livreiro aposentado de Natal, com quem conversava sobre o assunto e sobre aqueles pacóvios, não me deixaria mentir), mal dedicando tempo às suas leituras, ao abraço diário com o seu arsenal de palavras. E há. E são muitos. Um exército, quase.

Eu, mesmo, talvez tenha adquirido mais livros do que serei capaz de ler em toda a minha vida. Sei que alguns são mais para consultas, como os dicionários pelos quais sou apaixonado. Outros são pelo prazer táctil e visual, pelas edições de luxo e/ou mais difíceis de encontrar nas livrarias e sebos.

Mas, sou sabedor de que o que importa mesmo é a leitura. E é a ela que tenho me dedicado, muito mais que à compra de livros a esmo. Hoje, não teria pudor em substituir uma parte de minha biblioteca física por um bom iPad ou um Kindle. Ainda estou aguardando pelo meu.

E, à medida em que vou vencendo leituras muitas, muitos livros, como objeto, deixam de ter valor para mim. Sem pudor. Sem medo de ser econômico.

Por tal razão, a doação ou uma passada num sebo amigo para deixar alguns desses velhos companheiros é, por vezes, uma boa solução.

Mas, aí é que vem a pergunta: por onde começar? A partir de qual setor da biblioteca, iniciarei minha estratégica redução de adiposidades?

Fico olhando e sinto enorme dificuldade, vendo que alguns daqueles volumes me são de extrema importância e afeição.

Mas, como a compactação da biblioteca é uma meta, vou pesquisando, pesquisando e, de repente (eureca!), assumo a certeza de que, sim, alguns livros serão facilmente descartados. Encontrei-os. E, de fato, não farão tanta falta. Já vão tarde! Muito tarde!

Afinal, nem todos os livros e pessoas são, de fato, uma boa companhia…

www.oteoremadafeira.blogspot.com

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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