Bibliotecário também tem seu dia

É preciso efetivar em toda sua potencialidade o papel social da biblioteca, por meio da formação do leitor, da democratização do acesso e da mediação da informação, com a presença efetiva de bibliotecários e estudantes de Biblioteconomia.

Gabrielle Francine Tanus

No último dia 12 de março comemorou-se o dia do bibliotecário. A data homenageia Manuel Bastos Tigre, primeiro bibliotecário concursado do Brasil. Homem múltiplo, o pernambucano foi jornalista, poeta, humorista, compositor e publicitário.

Em 40 anos de atuação como bibliotecário, trabalhou na Bibliotecas Nacional, no Museu Nacional, da Associação Brasileira de Imprensa e Central da Universidade do Brasil.

Confesso que eu não prestava muita atenção a essa data, mas a partir de agora ela tem diversos significados para mim e por isso senti a necessidade de dedicar-lhe esta crônica.

Estou no primeiro período do curso de Biblioteconomia da UFRN. Em breve farei parte desse campo de atuação tão amplo quanto fascinante que é a Biblioteconomia.

Admiro profundamente o trabalho de Zila Mamede (Leia As Cartas de Zila), poeta e a maior referência na área de Biblioteconomia no Rio Grande do Norte.

Basta dizer que Zila foi diretora do Serviço Central de Bibliotecas da UFRN e, entre outras atividades importantes na área, ministrou, em 1966, o I Curso Intensivo para Treinamento de Bibliotecários, realizado na UFRN, e organizou o acervo da Biblioteca Pública Câmara Cascudo, fechada há seis anos.

Recentemente, li uma obra que aumentou minha admiração por Zila. Trata-se do livro de Claudio Galvão “Zila Mamede: em sonhos navegando” (Natal: Moura Ramos, 2005).

O livro aborda sua trajetória como bibliotecária e seu itinerário como poeta, sendo mostrado ao leitor o cenário de composição de seus livros. Não vou me estender no assunto porque será tema de uma outra crônica.

Ilustração: Noah MacMillan

Rio de leitura

Fosse eu uma pessoa pessimista, diria que não temos muito a comemorar em relação ao dia do bibliotecário, no entanto, prefiro pensar que o legado de Zila e seu pioneirismo no estudo e na prática da Biblioteconomia, por exemplo, devem nos encher de orgulho e coragem para seguir lutando por um acesso democrático ao livro e à leitura.

E não só o trabalho de Zila, mas também o legado de Bastos Tigre, de Edson Nery da Fonseca e, sobretudo, o trabalho de mediadores de leitura, de bibliotecários e de professores como Gabrielle Francine Tanus e Angélica Vitalino, por exemplo.

Gabrielle é professora do curso de Biblioteconomia da UFRN e está encabeçando um Manifesto de reabertura da Biblioteca Pública Câmara Cascudo, fechada para reforma em 2012 e “reinaugurada” em 2018.

Detalhe: a biblioteca foi reinaugurada, mas não reaberta ao público, o que causou desconforto e certa revolta na população, tendo em vista que é a principal biblioteca pública da cidade de Natal.

Angélica é professora do município de Parnamirim e assessora técnica do projeto “Parnamirim, um rio que flui para o mar da leitura”, cujo objetivo é promover a formação de leitores e desenvolver o gosto pela literatura, por meio de saraus, atos literários, fóruns, intercâmbio com escritores e editores, segundo informações disponíveis no site do projeto.

Criado em 2010, o “Rio de Leitura”, como também é conhecido o projeto, já arrematou sete prêmios ao longo de sua trajetória.

Em 2018, recebeu o prêmio de segundo melhor Programa de Incentivo à Leitura junto a Crianças e Jovens de todo o Brasil.

A premiação foi concedida pela Fundação Nacional do Livro Infanto e Juvenil (FNLIJ), em solenidade realizada no Rio de Janeiro. O projeto recebeu, além da premiação (segundo lugar), a doação de 300 obras literárias, destinadas à Biblioteca Municipal Rômulo Wanderley, que congrega as demais bibliotecas ligadas ao “Rio de Leitura”.

Outra premiação importante, recebida também em 2018, foi o Prêmio IPL – Retratos de Leitura, do Instituto Pró-Livro, no qual foi escolhido como um dos três melhores projetos de leitura do Brasil.

Esse projeto abarca as escolas de Ensino Fundamental I e II e Educação de Jovens e Adultos (EJA) do município de Parnamirim e garante a política de formação de leitores, bem como oficializa a função dos profissionais mediadores de leitura. Tudo isso está em conformidade com a lei municipal nº 1.563, de 27 de dezembro de 2011, a qual trata da Criação da Política Municipal de Promoção da Leitura Literária nas Escolas Públicas do Município de Parnamirim/RN. O Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) é parceiro do projeto.


Zila da Costa Mamede´(1928-1985)

Bibliotecário é agente transformador

Voltando ao Manifesto em favor da reabertura da Biblioteca Câmara Cascudo, a professora Gabrielle lembra que a comunidade está sendo “privada de acessar o espaço cultural, informacional, educacional e de memória, de uma biblioteca que dispõe de mais de cem mil exemplares, entre livros, revistas, jornais, fitas VHS, fitas k7, CDs, DVDs e uma hemeroteca (recorte de jornais), os quais encontram-se guardados desde a reforma”.

Esse manifesto me fez lembrar algo que aprendemos desde o início do curso: a função social da biblioteconomia e o caráter de agente transformador do bibliotecário e da biblioteca.

Aliás, aquela visão de que o bibliotecário é alguém que apenas organiza livros e fica atrás de um balcão está bem ultrapassada.

O bibliotecário trabalha, essencialmente, com a informação, a qual está em diversos suportes (físicos, digitais), e uma de suas funções é justamente administrar essa informação e disponibilizá-la ao usuário/leitor. O bibliotecário também é conhecido como gestor e mediador da informação. A propósito, a biblioteconomia faz parte das ciências sociais aplicadas.

Integração e nova biblioteca

Lições que alunos veteranos internalizaram e transmitiram aos calouros durante a Semana de Integração do curso, a Biblioweek, promovida pelo Centro Acadêmico Zila Mamede.

Entre outras atividades, como gincana e sorteio de livros, o evento ofereceu um vasto panorama das áreas de atuação da Biblioteconomia.

Foi uma semana de palestras com professores, alunos e egressos do curso que vieram dividir experiências com os novos estudantes.

Biblioteca Márcia Moreira, da Escola Municipal Manoel Machado, em Parnamirim

O empreendedorismo foi um dos destaques no evento. Nele Nelson Machado, bibliotecário do Senai, nos brindou com uma palestra sobre sua atuação profissional (bolsista da biblioteca da Escola de Música da UFRN) e as possibilidades de atuação de um bibliotecário.

Espero que ao longo de quatro anos de curso eu possa, além de adquirir conhecimento teórico-crítico, participar de ações que visem à melhoria do acesso ao livro e à leitura e possa, através dos estágios (supervisionados e voluntários), atuar com colegas de profissão, especialmente em bibliotecas escolares estaduais e municipais.

Por falar em bibliotecas escolares, tive o privilégio de participar de um evento emocionante no último dia 16 de março.

A convite da escritora Ana Cláudia Trigueiro, eu e Araceli Sobreira, escritora, prestigiamos a inauguração Biblioteca Escolar Márcia Moreira, na Escola Municipal Manoel Machado, no bairro de Emaús (Parnamirim).

A homenageada trabalhou mais de trinta anos como professora do município, começando sua carreira como alfabetizadora. Amigos, familiares e colegas de trabalho fizeram diversas homenagens à Márcia, emocionando o público em diversos momentos.

Os alunos também contribuiram entoando uma canção cujo tema era o livro e a leitura. Foi um privilégio participar do evento e ver o envolvimento da comunidade, dos alunos e funcionários nos projetos da escola.

Em conversa com o diretor, ele ressaltou, com orgulho, a participação efetiva da comunidade na organização daquele evento.

Reprodução do quadro “Kid Reading Book, de Zohaib Ahmed

Cores e encanto

Enquanto escutava, emocionada, as homenagens à patronesse da biblioteca, fiquei pensando como seria bom se todas as crianças tivessem acesso ao livro e à leitura.

Infelizmente, essa não é a realidade e ainda temos muitas crianças fora da escola e outras que, mesmo estudando, não dispõem de uma biblioteca devidamente estruturada e com profissionais qualificados para atendê-las e conduzi-las ao mundo mágico da leitura. Jamais tive acesso a um espaço daqueles quando criança!

Que maravilha é poder desfrutar de um lugar assim, tão vivo, e com profissionais habilitados a estimular os pequenos leitores.

A biblioteca da Escola Manoel Machado é, como deve ser, um espaço de leitura, aconchegante, com atividades cheias de cores e encanto.

Há diversos quadros pintados pelos alunos, tapetes, almofadas… Ouvi falar até de um certo “tapete mágico”. Ah, como deve ser bom viajar nesse tapete!

Ao chegar em casa, tive a certeza de que valeria a pena escrever uma crônica sobre o dia do bibliotecário, afinal de contas, a inauguração de um espaço como aquele me fez renovar a crença na revolução que os livros podem causar.

Lindiana, 47 anos, catadora de lixo, uma das ex-alunas da escola e voluntária como mediadora de leitura, é prova viva disso.

Leitora voraz, ela diz encontrar no lixo sua maior riqueza: os livros. Ela sabe que “Um país se faz com homens e livros”, como disse Monteiro Lobato.

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