Biografia investiga últimos anos de Virginia Woolf

Foto Associated Press. A escritora modernista inglesa Virginia Woolf (1882-1941)

Por Marcelo Pen
ESPECIAL PARA A FSP

Em maio de 1936, Virginia Woolf e seu marido Leonard atravessaram a fronteira da Holanda com a Alemanha. Pretendiam cruzar de carro o país para chegar a Roma. Às vésperas da Segunda Guerra, queriam, segundo Leonard, adquirir uma melhor compreensão da “política internacional e da natureza humana”.

Havia motivos para preocupação, dadas a filiação socialista de Leonard e sua condição judaica. Foram aconselhados a evitar manifestações e levaram consigo uma carta de apresentação para o príncipe Bismarck, conselheiro da embaixada alemã.

Em Bonn, apesar dos cuidados, deram com uma estrada fechada e se viram encurralados por uma multidão de entusiastas nazistas que aguardava a chegada de Göring, o segundo homem do Reich.

Os Woolf seguiram temerosos entre cartazes que diziam “O judeu é nosso inimigo”, mas não foi preciso sacar o salvo-conduto. Leonard trazia de Londres uma fêmea de sagui chamada Mitzi que ele salvara de maus-tratos no ano anterior.

A multidão tomou-se de amores pelo animal, saudando-o com gritos de “Heil Hitler” e lançando acenos para ele e seus donos. Passaram assim sem maiores percalços pela turba “dócil histérica”. Mas quilômetro após quilômetro acompanhou-os um desagradável senso de irrealidade.

O episódio é representativo desta vasta biografia (com fotos, adendos e índice remissivo) de Herbert Marder, professor emérito de inglês na Universidade de Illinois, sobre os últimos 11 anos de Virginia.

Representativo não só por essa singular mistura de política e domesticidade, mas também por privilegiar o compromisso da escritora com a vida.

Todos sabem que ela se afogou cerca de cinco anos depois, enchendo os bolsos de seu casaco de pedras e entrando no rio próximo a seu chalé em Rodmell, Sussex.

Claro que foi uma recaída da crise de 1913, quando ela tentou matar-se com Veronal. Mas Marder não se prende à doença, de fundo maníaco-depressivo, de que padecia a escritora. Dá-lhe a importância devida; nem mais nem menos.

Também, na maioria das vezes, evita as explicações, sobretudo as psicológicas, e relata os detalhes do cotidiano de Virginia ao mesmo tempo em que procura perseguir ali os padrões ou motivos íntimos capazes de iluminar a existência da autora.

Em seus febris esforços de criação, Virginia fazia cronogramas, revisava furiosamente, tinha dois ou três projetos em andamento e preocupava-se com a quantidade de páginas que escrevia a cada dia.

Ela se afligia com o acolhimento crítico de suas obras e mostrou-se exultante com as vendas de “Orlando” e “Um Teto Todo Seu”, que lograram “contribuir para a prosperidade da Hogarth Press”, a editora que mantinha com Leonard.

Ao mesmo tempo, presenciamos seus encontros com T. S. Eilot e Freud, e acompanhamos seus passeios pelo campo e por Londres (ela era uma inveterada andarilha), sua agitada vida social e suas desavenças com a tagarela cozinheira Nelly Boxall.

Nós a vemos consolando Dora Carrington pela perda do companheiro Lytton Strachey e a irmã Vanessa pela morte do filho Julian Bell na Guerra Civil Espanhola. Virginia sempre foi racional, mesmo quando consolava. Rigorosa, não se permitia dizer palavras que iludissem seu interlocutor.

Sua morte foi de certa forma uma decisão racional. Não queria que tentassem iludi-la. Talvez tenha sido este um dos padrões de sua vida, mas Marder, como sempre, deixa as inferências por nossa conta.

VIRGINIA WOOLF: A MEDIDA DA VIDA

AUTOR Herbert Marder

EDITORA Cosac Naify

TRADUÇÃO Leonardo Fróes

QUANTO R$ 77 (584 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

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