Biografia: quem dá bola pra isso?!

Biografia? Ora, bolas! Biografia é areia molhada que se amolda conforme o pé de quem pisa. Pra qual finalidade eu buscaria ter controle sobre a minha própria biografia? Puxa vida, sei que ela mudará conforme o desejo de quem a escreve ou lê e conforme os ventos dessa praia alagoana em que faço minha caminhada matutina e penso em como elaborar mais um texto para os amigos potiguares. Enquanto caminho, perco alguns gramas e já não sou o mesmo ao final. E se algum paparazzo ousado me fotografar? Claro que vai ser o retrato do momento, mais gordo ou menos gordo; alguma verdade, alguma mentira. Depois é só pesar na balança dos dados biográficos.

Biografia – acho que já li algo sobre isso: é quase uma espécie de obra ficcional. Somos invenções dos outros. E somos invenções de nós mesmos. Temos que ser pra viver. O biógrafo é sempre um formulador de especulações. E vá você imaginando também o que pensa cada leitor após perpassar dezenas de páginas sobre a vida de alguém, de um outro alguém, desvelado dos seus mistérios, estes que, no entanto, são sempre inesgotáveis. Evidente que ele colará sua vida na vida do outro e depois efetuará o decalque (ou recalque), estabelecendo as comparações indevidas ou devidas. De vidas. E até aí o personagem já será bem diferente. Ou seja, o ser biografado ingressará num mundo caleidoscópico e, por vezes, surreal. E cada um vai vê-lo na conformidade do seu próprio olho. Ela, ele ou eu seremos vistos através das lentes e do glaucoma ou miopia alheia.

Alguns desejariam ter biografias perfeitas, como se perfeitos fossem. Mas, talvez aí já seja pedir demais. E então? Vamos proibir, moçada? Vamos evitar que nos fotografem através das palavras? Ora, censurar ninguém se atreve, ao menos nos discursos que buscam evitar mais detalhes desagradáveis no retratinho do biografado. Sei não! Parece até que todo mundo é tão certinho… Só que não! Não dá pra ficar manipulando informações sobre nós mesmos a todo tempo. Não dá pra colocar botox nas fotos e nas palavras que descrevem aspectos diversos das nossas vidas. E se na biografia do sujeito aparecer que ele passou de censurado a censor? Bem, aí já não é culpa do biógrafo. Ou é? E você? Diga-me. Tenha coragem. O que gostaria que contassem e que constasse em sua biografia? Pode dizer. Juro, com os dedos cruzados, que não contarei pra ninguém! Mas, pensando bem, é melhor se preocupar mais em viver a vida do que com a biografia que um dia alguém escreverá (ou não) sobre as impressões que se tem a respeito dela. Será melhor do que ter saudade do que não se viveu.

Por falar em saudade, vou ali bater um papo com uns bons amigos sobre a biografia de Vinicius de Moraes, que completaria neste mês, se vivo fosse, cem anos. E já fico me perguntando se Vinicius teria algum dia se preocupado em censurar os seus futuros biógrafos. Acho que não. Vinicius, apesar do plural no seu nome, tinha uma vida só. E por isso precisou e escolheu vivê-la intensamente, como poucos biografados e biógrafos conseguiram ou conseguirão. O poetinha já nos havia dado pistas sobre o que pensava a respeito da própria vida (a verdadeira e única) quando disse no samba “Deixa”, em parceria com Baden Powell: “Deixa/Fale quem quiser falar, meu bem/Deixa/Deixe o coração falar também/Porque ele tem razão demais quando se queixa/Então a gente deixa, deixa, deixa, deixa/Ninguém vive mais do que uma vez.”
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Texto também publicado no jornal Tribuna do Tribuna do Norte: http://tribunadonorte.com.br/noticia/biografia-quem-da-bola-pra-isso/264420

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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