Biografia tenta explicar o fenômeno Saramago

Conhecido principalmente por não recuar diante de posições e ideias controversas, largamente exploradas em seus livros, o escritor José Saramago ganha agora uma biografia que ajuda a entender um pouco da atmosfera de polêmica e radicalismo que cerca seu nome e sua obra, não obstante a aparente unanimidade em torno desta, desde que recebeu premiações maiúsculas como o Camões (1995) e o Nobel (1998).

Intitulado apenas “Saramago – biografia”, o livro é assinado pelo experiente escritor português João Marques Lopes, com trabalhos publicados sobre Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa, e doutorando em Literatura Brasileira pela Universidade de Utrecht, na Holanda.

Escrita de forma cronológica, a biografia parte das raízes familiares de Saramago, fincadas na sua Azinhaga natal, “uma aldeia perdida no meio do Ribatejo”, que poderia muito bem ter saída de um conto de Miguel Torga. Por essa razão, Lopes não vacila em situar as origens da família do escritor entre os desfavorecidos da sociedade portuguesa, numa época em que a expectativa de vida no país era de 47 anos, enquanto o analfabetismo rondava espantosos 61,8%.

Fato dos mais curiosos cerca a origem do nome Saramago: a alcunha pespegada à família do futuro escritor foi incorporada ao seu nome – ele se chamaria tão somente José de Souza – por iniciativa de um notário “bêbado”, e quando foi percebida, meses depois, seu pai deixou como tal para evitar a canseira do conserto cartorial…

O fenômeno Saramago começa a ser explicado a partir do momento em que a família aldeã resolve se mudar para Lisboa, onda a escola pública findará por atrair o jovem ribatejano, e, em seguida, o mercado de trabalho – inicialmente como aprendiz de serralheiro mecânico, depois como jornalista, editorialista, escritor. A par disso, desde os dezesseis anos, Saramago adota o costume de frequentar bibliotecas públicas em Lisboa.

Esse hábito explicaria como Saramago adquiriu um conhecimento tão sólido da tradição literária portuguesa, notadamente de Eça de Queirós e de Fernando Pessoa. Este, aliás, seria “recriado”, juntamente com seu heterônimo Ricardo Reis, num livro essencial da bibliografia saramaguiana – O Ano da Morte de Ricardo Reis que, juntamente com Memorial do Convento, forma o pilar sobre o qual se assenta até hoje sua notoriedade literária.

Além de acompanhar fato a fato a vida de Saramago, o livro de Lopes traz revelações e curiosidades sobre o escritor, como, por exemplo, sobre seu romance de juventude, intitulado Terra do Pecado, que passou quase anônimo pela crítica, e que o escritor até hoje mantém em seu index prohibitorum pessoal. O biógrafo assim o descrever: “Terra do Pecado vale hoje mais como um exercício de escavação arqueológica no passado do escritor do que propriamente por razões de história literária, ainda que sua arquitetura geral e estilo estivessem longe de ser uma rematada tolice”.

Entre esse primeiro romance (1947) e outros experimentos de juventude e a publicação de Poemas Possíveis (1966), abre-se um hiato de quase vinte anos, no qual Saramago nada publicou. Findo esse hiato, porém, não deixará mais de publicar, e com uma profusão e uma riqueza de assuntos que não tardará a chamar a atenção da crítica internacional, não obstante o fato de ser ainda hoje a língua portuguesa pouco conhecida literariamente fora das fronteiras dos povos lusófonos.

Paralelamente a essa regularidade criadora, Saramago chamará a atenção sobre si por abraçar ideias controversas, como o iberismo – integração de Portugal à Espanha, seus reparos à democracia, como no romance Ensaio sobre a cegueira, seu comunismo “empedernido”, sua crítica ao totalitarismo sionista, sua recusa a certos conceitos literários em voga, como a autonomia do narrador.

Entre o escritor e o polemista, a biografia de Lopes oferece um rico painel de uma personalidade fascinantemente criadora, em torno da qual não costumam haver meios-termos, mas cuja obra ostenta um relevo inconfundível no arquipélago da língua portuguesa contemporânea.

No dia 18 último, essa biografia virou sua última página, com o anúncio da morte do grande ficcionista português, orgulho da língua portuguesa. A partir de agora, caberá aos leitores manter vivo o legado que José Saramago deixou a eles, lendo-o, comentando-o, discutindo-o. Considerados os parâmetros usuais de avaliação e reconhecimento da obra de arte não há razões consistentes para duvidar da perenidade desse legado.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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