Moser lança “Cemitério da esperança”

Foto: Divulgação/Luiz Maximiano

Título original: Biógrafo de Clarice Lispector vai doar renda de novo livro para Movimento Ocupe Estelita

Por Maurício Meireles
O GLOBO

Benjamin Moser vem ao Brasil com frequência há 20 anos. Quando chegou aqui pela primeira vez, o país dava os primeiros passos para fugir da espiral inflacionária em que se metera. De lá para cá, o escritor e historiador americano viu o país crescer, crescer, crescer — e ficar mais feio, segundo sua concepção. Os culpados, diz ele, são os espigões, shoppings e prédios monumentais, frutos de uma noção de modernidade surgida nos anos 1920 e, mais tarde, encarnada na construção de Brasília.

Por isso, Moser — conhecido no Brasil como biógrafo de Clarice Lispector — se solidarizou com o Ocupe Estelita. O movimento de ativistas pernambucanos se opõe à construção de 12 torres residenciais no Cais José Estelita, o chamado projeto Novo Recife, na capital do estado. O escritor lança, depois de amanhã, pela editora recifense Cesárea, por R$ 3, o e-book “Cemitério da esperança”. O dinheiro arrecadado com o livro, que pode ser comprado no site www.cesarea.com.br, será revertido para o grupo de ativistas, que desde junho, após a reintegração de posse do terreno, organiza uma série de eventos e manifestações na cidade.

— Eles, como eu, querem um país que se respeite mais. Quando vejo esse projeto Novo Recife, enxergo um país que se odeia. Se as pessoas se levantarem, muito se pode fazer. As construtoras contam com a preguiça e a desmoralização do povo. O Ocupe Estelita mostra que os cidadãos querem ter voz — afirma Moser.

“Cemitério da esperança” é um ensaio sobre o imaginário brasileiro do progresso e sua relação com as reformas urbanas que aconteceram no país. Para Moser, os Estados Unidos são um país com o imaginário marcado pelo medo do declínio; já o Brasil, pelo desejo de encontrar um futuro prometido e abandonar um atraso histórico.

— Usaram esse conceito de modernidade, que data dos anos 1920, em várias cidades do mundo, mas ele falhou, porque era uma coisa horrível, que destruía as comunidades. No Brasil, porém, continuou. É uma história de ataque às cidades, mesmo as mais lindas, como Rio ou Recife — diz o escritor. — Falo no meu livrinho que a arquitetura monumental sempre trai seus propósitos. Projetos como o Novo Recife tentam ser símbolos de riqueza, mas são monumentos à pobreza, ao mau gosto espantoso que impera no urbanismo.

Embora fale principalmente da construção de Brasília, Moser parte do desejo de progresso brasileiro para analisar as principais reformas urbanas do país, desde a construção da Avenida Presidente Vargas, no Rio. Para o intelectual americano, esse tipo de reforma tentou, historicamente, apagar o passado, excluindo as pessoas, que eram removidas para dar lugar a tais empreendimentos.

— Não é um desejo de acabar com a pobreza. É um desejo de deixá-la menos visível. Um sonho utópico de um país que possa renascer. Lembra alguém que, no réveillon, jura que nunca mais vai mentir ou beber ou transar mas que, no dia 3 de janeiro, se dá conta de que continua a mesma coisa.

Críticas a Brasília

No “livrinho”, as críticas sobram para o principal nome da arquitetura brasileira — Oscar Niemeyer — e são fruto da decepção do escritor com Brasília. Para ele, a construção da capital encarna o mesmo desejo de reverter o atraso brasileiro de outras reformas urbanas.

— A arquitetura dele (Niemeyer) é uma ofensa ao Brasil. Só ele poderia ter feito um parque sem nenhuma árvore, como fez no Recife. O concreto de Brasília, ou do Recife, é uma declaração de ódio ao país — afirma.

O escritor americano vê na ânsia pela arquitetura monumental o desejo de poder dos políticos — daí sua relação próxima com regimes autoritários, diz.

— O poderoso no Brasil tem medo da senzala, da multidão. Essas obras são a exaltação do Estado. Assim, a Avenida Presidente Vargas representa o fascismo brasileiro. As construções em Brasília refletem a visão de um poder ditatorial. Tanto que os militares achavam a cidade linda.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Marcelo Feijó 14 de dezembro de 2014 21:11

    Sugiro para uma reflexão mais ampla e serena sobre Brasília (e sobre o urbanismo no Brasil) o filme Superquadras dos diretores Mario Salimon e Marcelo Feijó, disponível no endereço superquadras.org . Trata-se de uma articulação de idéias a partir de entrevistas com seis arquitetos e urbanistas que conhecem o Brasil e Brasília. Mas quem preferir chilique intelectual, pode ficar com as entrevistas do Benjamim Moser, publicadas no Correio Braziliense e Folha de São Paulo
    abs,
    marcelo feijó

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