Bizet, Nietzsche, Schomberg e…Carmen

Tentando compreender melhor o mundo da ópera, tenho feito leituras esparsas e ouvido e visto algum material em CDs e DVDs. O trecho seguinte, que ora trago para apreciação, eu o li no belíssimo livro “A Vida dos Grandes Compositores”, de Harold C. Schomberg, tradução de Wagner Souza, Osasco, SP: Novo Século Editora, 2010, págs. 385/386 (o original, em inglês, “The lives of the great composers”, teve primeira edição em 1970):

“Depois de Fausto, a grande ópera francesa foi Carmen. O brilhantemente dotado Georges Bizet, que faleceu aos 37 anos, é praticamente um homem de uma obra só – mas que grande obra! Carmen foi a única peça que ele escreveu que o representa em toda a sua maturidade. Se ele tivesse vivido mais, teria revolucionado a ópera na França. Apesar de sua morte, Carmen se tornou reconhecida como obra de um gênio, a ponto de alguns verem nela uma oportunidade para corrigir Wagner. Nietzsche foi um desses. “Meus favoritos entre os franceses de hoje são Bizet e Delibes”, escreveu. Léo Delibes (1836-1891) compoôs duas das mais belas partituras para balé, Coppélia e Sylvia, e sua ópera, Lakmé, bem como sua adorável canção Les Filles de Cadiz, permanecem no repertório. “A ópera Carmen de Bizet”, continuou Nietzsche, “eu conheço bem. É uma música que não tem pretensões de ser profunda, por isso é deliciosa em sua simplicidade, tão vivaz, tão pouco afetada e sincera, que a tenho toda de memória, do começo ao fim”.

Nietzsche subestimou Carmen. Ela é uma obra muito mais profunda que o seu comentário condescendente faz crer e seu último ato tem algo do terror e da inevitabilidade do último ato de Don Giovanni. Carmen de certa forma é Don Giovanni de saias. Ela preferiria morrer a ser falsa consigo mesma, o que a torna uma autenticamente grande personagem. A ópera não tem um libreto perfeito – Micaela está submersa e sua contribuição para o todo é inteiramente inconvincente  – há também momentos fracos na partitura, mas a obra é, entretanto, uma concepção flamejante e até hoje surpreendente. Quando a grande inspiração da ópera, o tema do Destino, é ouvida, fria e ameaçadora, até o mais blasé dos ouvintes sente sua adrenalina subir.”

De fato, um mundo à parte. Um fabuloso mundo a ser explorado. E é o que venho fazendo, em algumas horas livres de que disponho nos dias tórridos e cheios de brisa desta querida e operística província ensolarada.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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