“Blecaute” tá vivo

Foto: Ivanízio Ramos

Por Franklin Jorge
NO NOVO JORNAL

O crescente interesse que desperta a
vida de Blecaute entre os jovens atuais
merece refl exão e análise ou, simplesmente,
alguma espécie de questionamento
necessário. Começou com a sua
morte trágica, súbita, brutal, quando fazia
um biscate, consertando a fi ação de
uma residência, sem nenhuma precaução
ou equipamento. Morreu eletrocutado.

Agora, pintam-no como um herói.
Um herói literário que assombra o ofi –
cialismo de Natal. Já quiseram até degluti-
lo, entronizando-o, post-mortem,
num Dia da Poesia, mas se engasgaram.

Imolado pela arte, Edgar Borges
– seu nome civil – vem se tornando
o símbolo de algo que nos incomoda.
– É, sobretudo, o símbolo da contracultura
militante entre nós. Um ícone,
enfi m, contracultural, por excelência;
alheio a privilégios, nadando contra a
corrente, em permanente corpo a corpo
com a vida mesquinha, foi sobrevivendo
na província hostil e canibalesca,
curtindo internações psiquiátricas
e sevícias, até o choque fi nal. Um
ser inusitado, esse Blecaute, que nasceu
e viveu em Natal, vacinado contra
o convencionalismo, contra a regra,
contra o reducionismo pseudo-burguês
que afl igiu em seus versos desconexos
ou surreais. A bem da verdade,
em matéria de produção, só produziu
efetivamente uma espécie de mal-estar
moral, ao externar a sua confi ança
na vida e seu desejo de viver.

Não é, como escritor, relevante. Porém

possuía múltiplos talentos em estado

selvagem, entre os quais a poesia,

a pintura, a comunicação e, por fi m,

nas quais se realizou integralmente, as

performances que deram notoriedade

ao seu jeito gauche e excêntrico de ser,

mal assimilado pelas forças de segurança,

ás vezes apenas para gozo da perversidade

de alguns policiais, ou, por

idiossincrasia, discordarem do seu gosto

por “modelitos” compostos segundo

um viés estético personalíssimo, algo

assim como uma grife by Blecaute.

Eternamente fl âneur, terá sido o ultimo

dandi de Natal. Presente em toda

a parte, sempre estiloso e elegante

made in Blecaute; fazedor de surpreendentes

modelitos, fazendo-se notar por

sua maneira ousada e nada convencional

de se vestir, ao combinar com inteligência

e ousadia elementos, padronagens,

cores, texturas e adereços capazes

de chamar a atenção, inclusive da

policia que fazia-lhe o buillyng moral,

na época, ainda não reconhecido como

tal nem criminalizado. A escolha dos

adereços, óculos, colares, cintos, chapéus,

bonés, pulseiras, anéis, lenços, sapatos.

Essa profusão de detalhes deixavam

a policia em alerta. Queriam

sempre saber como, vivendo de biscates,

vestia-se tão bem e ostensivamente

exibia a sua personalidade gritante.

Nunca a mesma combinação todos os

dias, rezava a cartilha do esteta e estilista

Blecaute. O mundo era, para Blecaute,

uma permanente novidade.

Um verdadeiro horror, recordava-

-se, conversando em minha sala no

Solar Bela Vista. Uma vez chorou contando-

me o que de humilhações e sevícias

sofrera nas mãos de um delegado

que o prendera por destoar da

moda e estar tão bem vestido quando

aparentava ser um duro contumaz.

Recebia-o toda vez que me procurava

e, das nossas conversas e de suas

pungentes confi ssões extraí um capitulo

do “Spleen de Natal” [1996, livro

reeditado em 2001 pela Editora

da Universidade Federal do Rio Grande

do Norte e inspirador, desde então,

de uma rica e crescente “fortuna crítica”,

teve apenas o seu primeiro vvolumm

publicado ate agora…], que se

tornou muito lido entre os novos iconoclastas.

Blecaute, se me perguntam,

era um negro bem apessoado, magro,

elegante, expressando-se bem, viveu

uns tempos com Gardenia, que dizia

ser nome de mulher e de fl or.

Apresentou um programa de rádio

que dava conta das atividades culturais

da cidade, comentava e criticava.

Por algum tempo, teve audiência cativa

nas noites de sábado.

Quando morreu, ninguém lhe reclamou

o corpo, exceto o jornalista

Flávio Rezende, e ele fi cou na geladeira

do necrotério por vários dias, morto

insepulto. Foi ele, Flávio Rezende, que

levou a peito a tarefa de organizar-lhe

funerais cristãos dignos. E o fez, movendo

céu e terra em Natal, para homenagear

esse rei vagabundo que por

algum tempo reinou sobre a cidade,

curiosamente, no entanto, sempre em

busca de trabalho e ocupação. Sobrevivendo

numa cidade que o teria deixado

“pirandélico”, transitando entre a

sua casa, em Mãe Luiza, e as celas do

hospital psiquiátrico. Porém sem perder

o estilo jamais.

********

Do editor

Mais sobre Blecaute: aqui

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Alex de Souza
    Alex de Souza 29 de Abril de 2012 14:44

    franklin jorge quando acerta bota pra moer.

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