Blog e macarthismo

Por Fernando de Barros e Silva
FSP

SÃO PAULO – Criou-se um escarcéu em torno do blog de poesia de Maria Bethânia. Pessoas reagem com fúria indignada ao fato de que a cantora foi autorizada a captar R$ 1,35 milhão pela Lei Rouanet -segundo a qual as empresas abatem do imposto que pagam a parcela do seu “patrocínio” à cultura.

Parece, pelo menos à primeira vista, sem conhecimento detalhado do projeto, um valor bem elevado para um blog. Mesmo considerando que os personagens envolvidos sejam Bethânia e o diretor Andrucha Waddington. Até aí eu vou.

Não dá, porém, para embarcar na escandalização barata do episódio, ainda acompanhada pelo prazer grupal de promover o linchamento da artista. Ninguém desviou dinheiro público, não há, rigorosamente, nenhum crime, nenhuma ilegalidade no pleito de Bethânia.

Favorecimento? A lei existe e uma das maiores intérpretes do país busca se beneficiar dela. Não estamos falando de uma espertalhona, de uma charlatã ou de uma mercadista vulgar, mas de alguém, pelo contrário, cuja figura sempre esteve associada a uma atitude de recato e nobreza de espírito.

Devemos discutir os critérios e problemas da Lei Rouanet? Sim, mas não dessa forma, sensacionalista e hipócrita. A própria ministra, Ana de Hollanda, disse numa entrevista recente: “As pessoas vivem muito de produzir eventos pela Lei Rouanet. A lei foi criando certos vícios, não só no mundo artístico, mas também no das empresas”.

A reação ao blog de Bethânia, nos termos em que se deu, é, no fundo, só mais um capítulo de um certo macarthismo chulé que vem ganhando expressão no país. A caça às bruxas é capitaneada por uma direita cultural hoje bem estruturada na mídia, quase sempre maledicente e escandalosa.

As baixezas contra Chico Buarque em função do Jabuti são o caso recente mais emblemático do modo de agir dessa tropa do ressentimento fantasiada de exército da salvação da moral e dos bons costumes.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Camilo Irineu Quartarollo 10 de abril de 2011 9:16

    Eu também tenho um blog de crônicas, sou escritor independente e vivo de um salário em outra profissão, não tive a chance, nem galguei na juventude o caminho da Betânia que aprecio; todavia, eu não tive essa chance maravilhoso que ela tem. Um blog com tudo redondinho para exercer seu doce fascínio. E ainda se dizem que não foi privilegiada. Espero que não desaprovem meu comentário e o blog é http://www.camilocronicas.blogspot.com, sem fins lucrativos e onde cada um pode dizer o que quiser
    (ao menos, me deem esse incentivo, publiquem esse comentário)

  2. Mario Azevedo 19 de março de 2011 12:02

    Nada vejo de escarnecedor na atitude do Minc em autorizar a captação de recursos para a construção de um blog. Não percebo nenhum tipo de favortismo a isso, até porque os editais são abertos. O que conta nesse sentido, é que muitos talentos ficam de fora por não possuirem a dimensão do trabalho da cantora Maria Bethânia, que é inegável, independente de sua posição política, sexual, religiosa. Maria Bethânia é uma Musa da nossa música. Se dois milhões na minha conta tivesse, dois milhões te daria!

  3. Fernando Monteiro 19 de março de 2011 11:36

    Tácito:
    Quando surgiu a celeuma do blog milionário de Bethania, sinceramente eu pensei que a tentativa de “blindar” a cantora iria ser mastodôntica. Isso porque, na MPB, acho que a claque de Maria Bethania é a que mais se aproxima de algo, digamos, “corinthiano” na adesão e nos exageros dessa adesão.
    Não foi. Fiquei surpreso de ver o blog de ouro 28 quilates (24 é pouco) defendido por poucos — e, entre eles, não me espanto de meu ex-colega da BRAVO e “xará” (ninguém escolhe os xarás, infelizmente) Fernandinho de Barros e Silva… assim como Jorginho Furtado e outros que partiram, para, corporativamente, defender a nossa Diva de Nariz Nada Sutil.
    Prefiro mil vezes, dez mil vezes, cem mil vezes, a fantástica Concha Buika…

  4. Tácito Costa 19 de março de 2011 10:28

    “Macarthismo chulé”, “direita cultural”??? Esse colunista da FSP tá totalmente por fora. No Twitter, onde a polêmica se deu de forma mais acirrada, vi gente de todas as ideologias e credos discutindo a questão. E os posicionamentos não tinham a ver com ideologia.

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