Boa noite, Cinderela!

Boa noite, Cinderela!
Falara o rapaz cinicamente. O deboche em sua fala revela o que se mascara: todos lhe dirão a mesma expressão maldosa, seja quem for, onde esteja, sejam pais, irmãos, juízes.
O promotor desdenhará de seu “não”, de sua dor, e outro, dentre os doutos, apontar-lhe-á o dedo a dizer: Crucifica-a! És culpada de ser vítima!

Boa noite, Cinderela!
Repete então a Justiça. Justo ela que, vendada, usa vestes de mulheres, mas ergue a espada perversa, e mais uma vez traspassa, com seu instrumento fálico, a alma dela e de todas.
Cometeste o crime maior de seres bestializada pelo animal que te viola, e agora ousas pedir que a Justiça repare o teu erro, teu pecado, de seres por ele usada?

Boa noite, Cinderela!
Pensas então que te pertences? Em que mundo que tu vives, princesinha? De qual dos contos de fada, fora este de Cinderela, pensas que és protagonista?
Dizer boa noite a elas e chamar-lhe Cinderela é proclamar a sentença desde sempre promulgada de seres subjugada pelo algoz que te estupra.

Boa noite, Cinderela!
Não insista! Tua dor é nosso gozo, está dito…
O estupro foi sem querer, foi doloso, sentencia finalmente a mais culposa Justiça armada com sua adaga.

Professor, poeta e contador de histórias [ Ver todos os artigos ]

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