Boas leituras daqui

Por Woden Madruga
TRIBUNA DO NORTE

Durante a Flipipa, semana passada, o Sebo Vermelho lançou três novos títulos: Poesias Completas, de Ferreira Itajubá, Luiz Gonzaga e outras poesias, de Zé Praxédi, e Velhas Heranças, de Hélio Galvão. Na verdade, os dois primeiros livros são edições fac-similares. Título novo mesmo é Velhas Heranças, mas que não é um trabalho inédito do doutor Hélio Galvão. São textos que ele publicou na revista Bando, entre 1951 e 1972, que Abimael Silva juntou agora dando forma de livro, que tem uma bela capa de Alexandre Oliveira.

Velhas Heranças são pesquisas que o autor fez no cartório de Goianinha. “Notas arrancadas a processos de inventários do século XVIII, existentes no cartório de Goianinha, em leituras e decifrações pacientes. Custaram ao copista algumas noites”, como Hélio escreveu na apresentação de Bando, só que discordo de outra afirmação sua: “O que se vai ler é fastidioso e monótono. Até desinteressante, para leitores mais objetivos”.

Nada disso. Os inventários anotados ali levam o leitor a descobrir, ou redescobrir, as nascentes de uma civilização, mais rural do que urbana, sua vida social, cultural, política e econômica. Seus costumes. Seu jeito de viver. Suas crenças. O mobiliário das casas, os escravos, as dívidas, a religiosidade. Vou lendo algumas anotações de Hélio. Estamos no século 18:

– Algumas observações poderiam ser feitas, se houvesse espaço, já muito dilatado pela própria pesquisa. Aparecem os primeiros garfos de mesa. Não mais escravo de Guiné. Poucos os de Angola. Quase tudo é cabra, mulato ou crioulo.

– O algodão entra num ensaio de industrialização (Títulos de bens móveis do inventário de Bernardo Guedes da Fonseca). Não chegou ainda o jumento nem o mulo. Ausentes cabras, porcos e carneiros.

– O primeiro problema de filiação ilegítima aparece no inventário de Miguel Freire Revoredo.

No inventario de Bernardo Guedes da Fonseca, que era um homem de muitas posses, muitas terras e muito gado, encontro propriedades suas em lugares de nomes especiais: “uma légua de terra no Sertão do Açu, no lugar denominado Almas” e “uma porção de terras no lugar Valhame Deus”. Um nome, por sinal, muito apropriado para se dar em novo batismo para Natal.

Entre os bens móveis deixados por Rita Maria da Conceição, falecida em Arês, dia 2 de março de 1806, estão listados: “Um timão de veludo encarnado, já usado; uma capoteira de seda preta em bom uso; uma saia de sitim azul de meio uso; um lençol Bretanha da Suécia; uma cazaca de gorgorão verde furta-cõr; um culete de sitim azul e um calção de gorguram verde-côr; uma caixa pequena de pinho sem chave; uma casa com seu lastro de couro; uma foice velha; duas enchadas velhas.”

Itajubá

A primeira edição de Poesias Completas, de Ferreira Itajubá, é de 1927. Saiu uma segunda, em 1965, pela Fundação José Augusto, na época presidida pelo doutor Hélio Galvão. Aluízio Alves era o governador do Estado. Abre essa edição uma epígrafe de Aluízio: “A Cultura não é privilégio das elites. É Direito do Povo”. Esta edição fac-similar do Sebo Vermelho foi feita no rastro da edição da FJA. Tem orelhas de João Batista de Moraes Neto.

Apresentação da edição da Fundação José Augusto é do poeta Esmeraldo Siqueira. Um texto precioso, que acrescenta um valor especial ao livro: “Os leitores dispensariam, talvez, nossas palavras, por julgá-las supérfluas e mesmo intrometidas, preferindo travar relações imediatas com o Poeta, livres de explicações que muitas vezes que muitas vezes só servem pra retardar o prazer do entendimento direto”

Evidente que as palavras de Esmeraldo não são nem supérfluas nem intrometidas. Ao contrário. Levam o leitor ao encontro com Itajubá, traça o perfil do poeta e o situa “no seu tempo e no seu meio”, mostra a aldeia de Natal no final do século 19 começo do século 20, com uma população em torno de 8 mil pessoas e o convívio social de sua gente que, segundo Esmeraldo, se resumia “as festas de igreja e certos folguedos populares como o entrudo, os fandangos, as cheganças, os bois-calembas, as lapinhas e os pastoris”.

Esmeraldo destaca que os versos de Ferreira Itajubá muitas vezes refletem as torturas íntimas do poeta, mas ele não era um triste: “Saído do povo e vivendo com ele, a alma se lhe fizera à sua imagem e semelhança. Suas alegrias, como as do povo, eram simples e ingênuas.”

Zé Praxédi

Não conhecia o livro de Zé Praxedi, Luiz Gonzaga e outros poemas, agora reeditado pelo Sebo Vermelho. Conheci de perto o autor, o “poeta-vaqueiro” se apresentando nos auditórios de Natal. Cheguei a conversar com ele nas redações dos jornais e outros pontos da cidade. Simpático, bom conversador, riso franco no rosto largo. Além dos versos do poeta-vaqueiro – falando a língua dos matutos – nessa biografia do Rei do Baião, o livro, cuja primeira edição é de 1952 (Continental Artes Gráficas Ltda – São Paulo), traz dois textos especiais: uma Acta Diurna, de Cascudo, e um recorte da coluna de Sábato Magaldi, do Diário Carioca, do Rio de Janeiro.

Sábato Magaldi é um dos mais importantes críticos teatrais do Brasil, escritor, dramaturgo, historiador, membro da Academia Brasileira de Letras. Talvez o maior estudioso da obra de Nelson Rodrigues, sobre quem publicou vários trabalhos. Vai de Shakespeare a Nelson Rodrigues. Ainda na Flipipa, abrindo o livro me dado por Abimael, fiquei surpreso lendo a apresentação de Magaldi. Destaco, agora, alguns trechos. Começa assim:

– Sob o patrocínio do vice-presidente da República, sr. Café Filho, e das bancadas do Rio Grande do Norte, o Teatro Copacabana apresentou terça-feira última, um recital de poesia sertaneja do poe-ta-vaqueiro Zépraxédi.

– Utilizando forma popular, com temas próprios da vida nordestina, o poeta interessou à plateia pela simplicidade espontânea de seus versos. Como fonte, também, para o estudo da psicologia e dos problemas do sertanejo, o recital oferece rica matéria. São caracterizados o respeito e ao mesmo tempo a vigilância pela conduta do político, a inspiração romântica do amor, o sentido da família, o mundo feito de sentimentos simples e viris. Reponta, nos poemas, a queixa do nordestino pelas dificuldades naturais impostas à própria subsistência, mas há a confiança e o espírito de luta em vencer a escassez de recursos.

– No intervalo entre a primeira e segunda parte do programa, Luiz Gonzaga cantou excelentes baiões, de sua autoria (…) Foi uma noite significativa, sobretudo, para a colônia rio-grandense do norte aqui fixada.

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