Bob Dylan, o dinheiro e a censura chinesas

Por Maureen Dowd
NEW YORK TIME (NO VI O MUNDO)

Bob Dylan pode ter conseguido o impossível: inaugurar uma nova fase em se vender por dinheiro.

A ideia de que o trovador de voz rouca dos hinos libertários dos anos 60 fosse a uma ditadura e não cantasse tais hinos se constitui numa nova forma de traição aos ideais — ainda pior que o de Beyoncé, Mariah e Uhser, que receberam milhões para cantar para a família Qaddafi, ou de Elton John, que recebeu uma fortuna para fazer serenata aos odiadores de gays durante o quarto casamento de Rush Limbaugh.

[Nota do Viomundo: Rush Limbaugh é a versão gringa do Jair Bolsonaro, sem o mandato]

Antes mesmo que Dylan recebesse permissão para fazer seu primeiro show na China na quarta-feira, no Ginásio dos Trabalhadores de Beijing, ele ignorou seu próprio alerta em “Subterranean Homesick Blues” — “Melhor ficar distante dos que carregam a mangueira de apagar fogo” — e deixou o governo chinês aprovar o repertório.

Músicas icônicas da revolução como “The Times They Are a-Changin’” e “Blowing in the Wind” não seriam apropriadas para embalar os 2 mil apparatchiks que estavam na audiência relaxando depois de cumprir tarefas na repressão.

Temerosa da onda de democracia que está tomando conta do Oriente Médio, a China está conduzindo a mais forte onda de repressão em uma década contra artistas, advogados, escritores e dissidentes. Está censurando (ou “harmonizando”) a internet e despachando a polícia secreta para prender à vontade, inclusive Ai Weiwei, o famoso artista e arquiteto do Ninho de Pássaro, o estádio olímpico de Beijing.

Dylan não disse nada sobre a detenção de Weiwei, não reprisou “Hurricane”, sua música sobre “o homem que as autoridades culparam por algo que nunca fez”. Ele cantou o repertório censurado, pegou a montanha de dinheiro comunista e caiu fora.

“The Times They Are Not a-Changin’”, notou o Financial Times sob uma foto do grisalho de 69 anos de idade, no palco usando um chapéu do Panamá.

[Nota do Viomundo: Trocadilho com o nome real da música, que diz que os tempos estão mudando]

“Imaginem se o Tea Party de Idaho tivesse dito a ele, ‘você não pode tocar o que quiser’, a resposta [de Dylan] seria bem diferente”, disse Sophie Richardson, da Human Rights Watch.

Aos 22 anos de idade Dylan se retirou do [programa] “The Ed Sullivan Show” na [rede de TV americana] CBS quando censores disseram que ele não poderia cantar “Talkin John Birch Paranoid Blues”.

[Nota do Viomundo: Fundador da John Birch Society, o fulano era um direitista paranóico que caçava comunistas sob a cama]

Mas Dylan é o primeiro a admitir que quer dinheiro.

David Hajdu, o crítico de música da [revista] New Republic, diz que o cantor sempre viveu uma tensão entre “não querer ser um líder e querer ser uma celebridade”.

No livro de Hadju, “Positively 4th Street”, Dylan diz que os críticos que o acusavam de ter se vendido para o rock não entenderam nada.

“Eu nunca me vi como cantor folk”, ele disse. “Eles me chamavam de cantor folk porque queriam. Eu não ligava. Tirei proveito, quando cheguei a Nova York, porque vi que havia uma grande audiência [para a música folk]. Eu sabia que não ficaria nisso. Eu sabia que não era a minha… Eu me tornei interessado em música folk porque tinha que dar um jeito de ser bem sucedido”.

“Música folk”, ele concluiu, “é um monte de gente obesa”.

Dylan não pode trair o espírito dos anos 60 porque nunca fez parte dele. Em sua memória, “Chronicles”, ele enfatizou que nunca teve interesse em ser o cantor anti-establishment e que toda aquele “mumbo jumbo cultural” aprisionou sua alma e o deixou com náuseas.

“Eu tinha muito pouco em comum e sabia menos ainda sobre uma geração da qual supostamente eu era o porta-voz”, afirmou Dylan.

Ele escreveu que queria ter uma casa com uma cerca branca na frente e rosas no quintal, viver em East Hampton com a mulher e um punhado de filhos, comer Cheerios e ir ao Rainbow Room para ver Frank Sinatra Jr.

“O que quer que a contracultura tenha sido, já vi o suficiente dela”, ele escreveu. Dylan reclamou de ter sido “aclamado como Grande Pai da Rebelião, Alto Sacerdote do Protesto e Czar da Dissidência”.

Cantar suas músicas com mensagens se tornou “como carregar um pesado fardo de carne apodrecida”, escreveu.

Hadju me disse que Dylan se distanciou das músicas de protesto porque “ele provavelmente está consciente do tipo de carreirismo aparente naquelas músicas”. Dylan empregou a propaganda para se tornar bem sucedido mas sabe que aquelas músicas “são muito rigidamente polêmicas” para representar seu melhor trabalho.

“Talvez os burocratas chineses sejam melhores críticos de música do que a gente admite”, Hajdu disse, acrescentando que Dylan agora é “um profissional da velha escolha”, como Frank Sinatra Sr.

Sean Wilentz, o professor de Princeton que escreveu “Bob Dylan na América”, disse que os chineses “estavam tentando proteger a audiência de uma figura que não existe há 40 anos. Ele [Dylan] foi congelado em 1963 mas não é o cara com a camisa surrada e os jeans que canta ‘Masters of War’”.

Wilentz e Hajdu dizem que não é possível censurar Dylan, já que as músicas dele são carregadas de subversão contra todos os tipos de autoridade, com exceção de Deus. Ele é duro contra os chefes, os tribunais, os políticos e qualquer um corrompido por dinheiro e poder.

Talvez ele devesse reler algumas de suas próprias letras: “I think you will find/When your death takes its toll/All the money you made/Will never buy back your soul.” [Você vai descobrir/quando a morte chegar/que nem todo o dinheiro ganho/comprará de volta sua alma]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Jonathan Rocha 14 de abril de 2011 15:25

    As pessoas esperam que ele suba no palco, cante canções de protesto e os ditadores caiam, se instale um governo comunista e todos saiam sorrindo do show dele?
    A vida é muito mais complexa que isso!

  2. Nabuco Pessoa 12 de abril de 2011 15:21

    Já os artistas das terras brasilis pegam dinheiro via Minc para projetos feito mariabethânia.
    Bonito gesto foi o de Jorge Ben(me recuso a usar o benjor) ao pedir apenas uns 8 mil reais para regravar ao vivo o antologico disco Tábua de Esmeralda.
    Aí sim o gente fina mostrou quem é. Viva Jorge Ben.

  3. Alex de Souza 11 de abril de 2011 14:50

    deixem o homem trabalhar.

  4. carlos de souza 11 de abril de 2011 10:39

    dylan é a própria contradição humana.é possível amar a obra e detestar o artista.

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