Bonecos habitáveis

Por Demétrio Diniz

Para Hildeberto Barbosa. Sábio, me ensinou que ao ficcionista não deve escapar nenhuma conversa.

 Uma noite de dança vale por três orgasmos, foi o que ela afirmou logo após sentar-se na mesa sem pedir licença. Falou que esteve ali na quinta, na sexta, e agora neste sábado. Ansiosa, olhava para o relógio, esperando a chegada do seu dançarino de aluguel. Tinha um fixo, disse, a quem pagava por noite cem reais e mais um prato de filé com fritas de madrugada. Ela mesma não sentia fome enquanto dançava. Bebida não incluía, temendo que o partner passasse dos limites. Preferia dançar com dançarino de aluguel, pelo menos não se expunha a homens mal cheirosos e mal educados, acostumados a limpar o rosto molhado de suor com a toalha da mesa. Tampouco escutaria no meio do salão, quando bem empolgada, a cantada de certos indivíduos, ela já sabia de cor: É hoje que vou conhecer seu apartamento? Abordagens desse tipo a constrangiam, a ela que era uma mulher refinada, que só usava perfume Chanel e bolsas da Victor Hugo e Timberland, cliente das mais sofisticadas grifes.

Daisy já passara dos sessenta, e ficara longe o tempo em que por duas vezes foi prefeita, eleita mais por conta da beleza. Os homens do seu município sonhavam em chegar perto dela, em fazer parte do gabinete, até mesmo como porteiro, para sentirem o rastro do perfume francês que ficava na escada como a cauda de uma rainha. Alguns deles, à noite, contavam para suas esposas estórias banais do dia com a voz monótona, arrastada, para que elas adormecessem logo. Escondidos debaixo do lençol, se masturbavam duas, três vezes, despejando imaginariamente o esperma na vagina de Daisy ou, como preferiam outros, na sua bunda dura, de atleta olímpico. Outros iam além: fantasiavam gerando um filho com a prefeita, que fosse bonito como ela e herdasse sua popularidade. Ela sabia disso, não faltava quem lhe contasse, mas o pensamento era para o marido, um médico judeu, magro e ranzinza, sempre com a barba mal feita, que andava pelos distritos chifrando os coitados dos maridos. A derrota por empate na última eleição Daisy atribuiu ao ciúme pelo médico. Enredou-se atrás de se informar das aventuras dele, coletou o endereço das amantes para conhecê-las pessoalmente a pretexto de pedir o voto, e não houve um dia em que não acordasse dominada pelo ciúme. Sem tempo para os eleitores, e diante da derrota, deu por encerrada a carreira política.

Não disse, mas lutava contra a velhice. Chegara recente de São Paulo, onde fez plástica no rosto, nos seios e na barriga. Frequentava diariamente academia de musculação, praticava pilates e natação três vezes por semana, e não faltava tempo para massagem linfática, banhos de ufurô e aulas de dança com um bailarino que dançou no teatro Bolshoi. Algumas vezes mostrou a Mirabeau, seu partner, as mensalidades pagas pontualmente às academias, mas ele já ouvira da filha mais velha de Deisy que esta só fazia pagar, mas nunca as frequentava, que gostava mesmo era de dançar de noite, e por isso tirava o dia dormindo. Vivia tão só para dançar, mantendo espalhada em vários nigthclubs uma meia dúzia de dançarinos de aluguel. Mirabeau era apenas um deles. Essa mania por dança a filha mais velha atribuía ao afastamento da política, onde ela era feliz, e à mudança para a capital, quando passou a viver sozinha num apartamento, vendendo perfumes importados.

Ele começou a se aborrecer por conta da insistência dela em falar de dinheiro, que tinha feito a plástica com o doutor Ivo Pitangui e pago cem mil dólares; de um apartamento que comprou na cobertura, com piscina e vista para o mar de Ponta Negra; não se importava de queimar gasolina com seu Evoque, da Land Rover, que não fazia mais que quatro quilômetros com um litro; dos depósitos gordos na poupança, afora as fazendas que o marido comprou, e eram tantas que ela não sabia ao certo quantas herdara.

Bêbada, no motel, chorava porque era sozinha, ninguém queria saber dela, as mulheres de sua terra eram umas putas e os maridos uns cornos safados, agindo só por interesse, pensando nas suas coxas, na sua bunda, e principalmente na sua caneta, que assinava um empreguinho de merendeira, chapeiro e outras coisas pequenas, pelas quais os infelizes brigavam como cachorros atrás de um osso. Chorava sentada na beira da cama, soluçando como uma criança, a vida podia ter sido diferente se em vez de ter se casado com aquele mão-de-vaca, o que fez por ordem do pai, tivesse fugido com Jessé, funcionário do departamento de obras contra as secas. Tão amável!, trazia de muito longe bombons e chocolates para ela e seu irmão caçula, o irmão do coração, e uma vez apareceu naquele deserto trazendo um ramalhete de flores frescas. Teria sido feliz, botando filhos no mundo, e depois os netos, e porra nenhuma de prefeitura, daqueles aduladores à espera de um minuto de descuido para lhe babarem a mão. Os pés jamais, a nenhum teria dado essa intimidade, como nunca deu nem ao médico, os pés só lamberia Jessé, no tempo do namoro, ou lavados com a melhor e mais cara champanhe francesa se hoje ainda fosse vivo.

Ao delegado, Mirabeau disse que não a suportava mais contando vantagem, para cair em seguida num desespero de vida, o gozo que não vinha porque bêbada ficava gritando Eu sou só, sozinha, puta que pariu!. Foi a partir de uma dessas noites que veio a ideia de matá-la. Não sabe explicar exatamente por quê, mas passou a querer vê-la morta. Trazia rancor porque Daisy exigia sempre que dançasse com ele naquele salão de dança decadente de velhas e velhos abilolados, dançando chá-chá-chá como se adolescentes, dançando Diana e La Bamba como outrora dançavam os marujos nos cabarés da Ribeira, e onde cantores em fim de carreira, mambembando, subiam ao palco para recolher os últimos trocados. Uma vez, lá no Tião Buffet, uma velha loura magrinha se retirou da mesa com a dentadura na mão, que caiu de folgada, botando a culpa num osso de galeto. Desejava mesmo era ir para o Aviador, clube das empregadas, cada uma mais sapeca que a outra, descontando no sobe-e-desce da suingueira o dia de forno e fogão; o passeio logo cedo com o cachorrinho da filha da patroa, o infeliz do cão cagando por onde passava, e elas tendo de se rebaixar e catar o cocô; as privadas que lavaram e os arrotos do bebê que tiveram de limpar toda vez que o danado botava pra fora aquela baba fedorenta. No Aviador ele era rei, sua majestade Mirabeau, livre de tudo, desamarrado, dançando umbigo com umbigo sem se desgrudar, até de manhã quando saía na hora da vassoura.

Não queria dinheiro da velhota, poderia forçá-la a revelar a senha de sua conta bancária, mas não era ladrão, com dinheiro no meio sua vontade ficaria alterada. Era matar por matar, vê-la morta, carregar o corpo na mala do carro para atirá-lo no rio, da ponte da Redinha, e ficar na amurada até vê-lo sumir no meio dos redemoinhos d’água. Lembrou-se que ela um dia falou na sua mania de echarpes. Colecionava echarpes, adorava echarpes. Adquiriu centenas delas nos países por onde andou, outras encomendava aos amigos que viajavam, e algumas chegou a comprar até pela internet. A sua coleção era de mais de trezentos cachecóis. Tudo começou quando em Petersburgo encontrou um frio de vinte graus abaixo de zero e ficou afônica. No primeiro dia da coleção comprou logo dez diferentes e nunca mais parou de comprar, embora não lhe faltasse mais a voz. O cachecol de que mais gostava comprou na Namíbia, com umas florzinhas coloridas que lembraram logo o pano da sombrinha que destravava nas tardes de domingo para passear com Jessé, os dois fazendo de conta que eram amigos, indo a pé até a serra para tirar fotos. Jessé, todo de branco, posava de ray-ban escuro, a caixa do óculo entrançada no cinturão, os polegares enfiados no cós da calça, e os indicadores apontando para o sexo à moda dos caubóis americanos. Nessas tardes havia sempre um beijo roubado, sentados à beira do olho-d’água, colhendo uma ou duas madressilvas que por milagre floresceram na pedra, e que ela levava para casa como recordação daquela tarde. À noite e nos dias seguintes as madressilvas a salvavam da incerteza se de fato o beijara na boca e por pouco não desmaiara, ou se era mais um de seus devaneios de adolescente. Já muito madura, após a viuvez, descia à noite de sua casa para a areia da praia e ficava nua, aquecendo com umas echarpes, à chegada dos ventos com o frio, o corpo ainda não envelhecido.

Mirabeau guardou a surpresa para o quarto do motel, para onde iriam no final daquela noite. Comprou uma echarpe de crochê, uma trama bem feita em ponto de cruz do melhor artesanato de Caicó, e da cor de vinho, a cor da preferência dela. Colocou-a no pescoço de Daisy, viu o sorriso de satisfação, felicidade demais para duvidar do carinho de Mirabeau, a ternura de macho depois de tanto tempo de espera, a certeza tão aguardada de que um homem novo e bonito pode amar uma mulher mais velha, e ele viu também o mesmo sorriso se desfazendo num esgar de olhos esbugalhados, atônitos, afônica como no dia em que começou sua coleção. Talvez tenha ouvido ou não o que ele murmurou, no começo, afável, Vai, docinho de coco…, e no fim, de dente trincado, morre, caralho!.

Saiu do quarto carregando-a com a cabeça recostada no seu ombro, como se sonolenta ou grogue, precisava ter cuidado, hoje havia câmeras por toda parte, sentou-a no banco do passageiro e atravessou a cidade, no som do carro o bolero que ela mais gostava de dançar, Dois pra lá, dois pra cá. No outro dia, encontraram o corpo circulando um dos pilares da ponte, a roupa aos pedaços, o corpo inflado como o dos bonecos habitáveis.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga. 16 de Janeiro de 2014 11:54

    Aplauso para vc, amigo escritor Demétrio Vieira Diniz.
    Muito bom seu texto. Muito bem escrito. Muito bem contado.
    Vou fazer uma campanha aqui no S.P para ver se vc aceita participar do livro de entrevistas
    (risos).
    Vc esta entre os melhores , nao apenas do RN, mas do Brasil.

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