Borges às cegas

Por José Castello
NO BLOG LITERATURA NA POLTRONA

Leio o Atlas, de Jorge Luis Borges, agora traduzido pela Companhia das Letras. Livro que Borges assina com sua companheira, Maria Kodama. Já no prólogo, esbarro com uma ideia que tipicamente borgeana: a de que a descoberta do desconhecido não é uma especialidade de Simbad, de Érico o Vermelho, ou de Copérnico. “Não há um único homem que não seja um descobridor”.

Nenhum conhecimento nos é dado, todos somos decifradores do mundo, Borges nos leva a ver. Todos interpretamos e editamos, a cada passo, nossas vidas, lhe conferindo novos significados, estabelecendo laços secretos, desvelando o desconhecido. O mundo também nos decifra, incessantemente. Que outra coisa faz a literatura, senão interpretar a alma de quem lê?

Na página 47 do Atlas, Borges relata um sonho que teve em Atenas, que ilustra essa escuridão sem fim que nunca deixamos de enfrentar. Está em uma biblioteca. Nas prateleiras, escolhe, por acaso, um livro sobre Coleridge. Ao folheá-lo, descobre, assombrado, que o livro tem um fim, mas não um início. Larga-o e se refugia em um ensaio sobre a ilha de Creta. “Também terminava sem ter começo”, relata.

Reflete Borges: ele está na Grécia, onde tudo começou. E, no entanto, naquela biblioteca, os livros não têm um início. Ali, nada começa. Entre as prateleiras, desafia-o uma pergunta sobre a origem. Conhecemos o fim inevitável mas, nem mesmo na hora da despedida, conseguimos nomear o ponto de partida. Ele perdura, esmaecido, como uma interrogação.

A certa altura, o sonho de Borges se desdobra em outro, em que o escritor joga xadrez com seu pai. Mexe as peças no tabuleiro, enquanto o pai, ao contrário, se mantém imóvel. Mesmo assim, a cada lance, seu pai pratica um ato de magia com que apaga uma das peças do filho. Sem esboçar um só movimento, vence a partida. Vence justamente porque não joga. Sequer começa a jogar.

Também os escritores, enquanto escrevem, miram um fim (um ponto de chegada), sem saber de onde partiram, sem poder dizer de onde aquilo vem. Não é preciso conhecer a origem para avançar e chegar. Ao contrário: a pergunta insistente sobre a origem só imobiliza. Todo escritor chega à escrita “pelo meio” _ como alguém que, por engano, confunde o horário de uma sessão de cinema e se defronta com uma história já começada.

Muitos, sem suportar a ignorância, desistem de avançar e desperdiçam a vida bradando a respeito da origem. Exigem, em desespero, a presença nítida de um pai. Borges, em vez disso, aceita jogar xadrez com esse pai ausente, a partir de quem o mundo só se move “por magia”. Magia? Ou porque, mesmo sem saber para que, continuamos a viver e a escrever?

O Atlas de Borges é, como atlas, inútil. Não aponta uma direção. Nada esclarece, ou localiza. Em vez disso, confunde e turva. Mas, só por isso, nos fascina.

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