Bowie morreu

David, Iggy e Lou, em algum lugar no século passado. Eles estão indo embora

BOWIE MORREU e eu estou aqui ouvindo, pelo youtube, seu último disco: Blackstar. No meio de tantos obituários, de repetições de obviedades sobre a genialidade de Bowie e do uso exaustivo do adjetivo “camaleônico” (ouço esse adjetivo relacionado ao finado David desde a época do Som Pop da TV Cultura nos anos 80); vi uma foto antiga, acho que dos anos setenta, em que um Bowie ainda no inicio da carreira aparecia ao lado de Lou Reed e de Iggy Pop.

Eles estão passando.

A geração de 1968 está indo embora. Eles não partem vitimados pelos seus próprios excessos suicidas, ou pelas fatalidades da vida. Simplesmente chegaram ao ponto de serem cortados do horizonte mundano pela navalha do tempo.

Como animais nitezscheanos, Reed, Bowie e Iggy (que ainda está na ativa neste plano do espaço-tempo) foram caminhantes do abismo. Flertaram com a morte e com a potência criativa do sexo e da loucura diversas vezes. Olharam para o lado escuro e retiraram dele substância para a arte.

O melhor que fizeram foi durar para morrer agora.

Tivessem morrido com 27 anos, ajudariam a configurar o coro dos covardes, que costuma a cobrar dos artistas uma moralidade muitas vezes incompatível com o exercício da criação.

Tivessem morrido com 27 anos (como muitos outros daquela geração) teriam ajudado a manter o discurso ideológico que confunde saúde com beleza e que identifica viver com durar.

Que bom que Bowie morreu agora.

Deixando no rastro de seu encantamento uma estrela negra pra mostrar a essa gente que aponta o dedo que a eternidade é a mais desconcertante invenção da arte.

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito [ Ver todos os artigos ]

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