Bowles e o sobrenatural

Por José Castello
O GLOBO

Assombrado, leio os “Poemas”, de Paul Bowles, editados pela Assírio & Alvim, de Lisboa, com seleção e tradução de José Agostinho Baptista (2008). Detenho-me em “Double exposure” _ que Baptista traduz como “Relatório duplo”. O poema é de 1927. Trata do duplo caráter da vida: seu invólucro visível e natural e seu caroço “sobrenatural”. Que está além do natural – que é imaginado, ou mesmo inventado.

Difícil dizer onde está o caroço e onde está o invólucro. Um fazendeiro observa a paisagem vazia do inverno. Nada parece se mover. E, no entanto. “Sobre o rugido do vento invernal sem obstáculos na floresta/ ouve-se o ruído o frio ruído das coisas que não são naturais”. É um miolo que se expõe, que se converte em casca. Que assombra e fascina. As coisas que não são naturais transitam, ainda, acima das copas das árvores
brancas e da própria montanha branca. Ali, “ouve-se o riso sobrenatural dos objetos naturais”.

O fazendeiro tosse e pensa no calor de sua casa. Não sente culpa, está sozinho, não existem ruas na floresta e ninguém pode matá-lo. Delirar não é um crime. A presença do sobrenatural (o fazendeiro e sua imaginação), porém, permanece. “Ouve-se esse grave gemido sobrenatural e sem sentido nas árvores”. Diz ainda: “Ouve-se que  pela noite ele não vai desaparecer”.

Penso, logo, no escritor, que também vive em dois planos. Não existem ruas que deem acesso a sua imaginação _ ele e o real não se ligam e, contudo, mantêm-se em paralelo e sob mútua e intensa influência. O plano “superior” _ o imaginário _ parece realmente não atingi-lo. Ele se sente um grande manipulador. É também. Mas se assemelha ao artista que mexe em material de risco, sem os adequados trajes de proteção. Não existem _ mas o escritor, quase sempre, se ilude que sim.

Acredita que os ventos que o balançam e o agitam são apenas naturais, mas eles procedem de suas fantasias, isto é, de seu miolo. Ninguém escreve um livro sem incorporar (sem devorar) esse livro. Escrever é, a rigor, uma espécie de regurgitação. Se não faz isso, se não expele o livro de si, escreve falsamente, ou apenas macaqueia. Tantos fazem isso. Escrever é lançar para fora o sobrenatural.

A figura do escritor nos perturba não porque ele seja um ente sobrenatural. Ele não é. Tampouco porque ele acesse esse mundo sobrenatural. Não o acessa exatamente. Mas, ao contrário, porque sofre dele _ está contaminado por ele. Daí os elos erráticos que se traçam, tantas vezes, entre criação e loucura. O mundo parece vazio _ parece gelado e branco _ se desprezamos esse segundo mundo natural que o sustenta e o envolve. Não só para os escritores.

Por isso, pensando em seu fazendeiro, Bowles prefere “deixá-lo reinar no seu gélido reino sobre as árvores da floresta”. A imaginação floresce: para um artista, ela não está dentro, ela está fora. Ela envolve a realidade e o exercício do escritor é, assim, um esforço de desvendamento. Uma luta, enfim, para enxergar o que, o tempo todo, esteve ali, mas quase ninguém viu.

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