Brado retumbante

Por Maria Elena Pereira Johannpeter
FSP

Nas últimas semanas, assistindo ao seriado O Brado Retumbante, fiquei muito chocada ao ouvir, dito pela “esposa do presidente”, que todas as ONGs merecem ser fechadas, pois são desonestas e se utilizam totalmente do dinheiro do governo, embora sua sigla signifique organizações não governamentais. Deixou nas entrelinhas que as ONGs estão a serviço apenas de políticos inescrupulosos.

Existem, no Brasil, 338 mil ONGs registradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que trabalham seriamente. Também sabemos que existem ONGs que são criadas exclusivamente para cobrir os interesses escusos de políticos, de empresários ou de outras pessoas. Porém não se pode “encher a boca” e dizer que todas merecem ser fechadas. É um grande desrespeito com as organizações sérias, como a que criei e onde trabalho há 15 anos, bem como outras, como a Todos Pela Educação ou o Movimento Brasil Competitivo (MBC) ou a própria Fundação Roberto Marinho, que é também uma ONG.

Sei que todas as que citei não se perturbam com esses pronunciamentos. Porém as pequenas, as que lutam diariamente por doações para poder colocar comida na mesa ou conseguir medicamentos para o seu público assistido, essas sofrem, sim, e muito.

Os meios de comunicação, com o enorme poder que têm em suas mãos, devem ser muitíssimo cuidadosos para não ajudarem a destruir aquilo que eles mesmos apoiam.

Na ONG Parceiros Voluntários são quase 3 mil organizações sociais conveniadas (OSCs) e 400 mil voluntários engajados no Rio Grande do Sul. Essas OSCs lutam contra todo tipo de problema que se pode imaginar para auxiliar crianças, idosos, pessoas com necessidades especiais e doentes a amenizarem as suas dores, a tristeza, a fome e a falta de um lugar para morar. Conhecemos de muito perto essa realidade e, por isso, podemos ser testemunhas do enorme esforço que essas ONGs fazem para buscar recursos e manter esses lares em benefício de quem não tem nada. Aqui, no Rio Grande do Sul, temos exemplos fantásticos de dedicação e profissionalismo. Muitas dessas ONGs dão um passo mais à frente e participam de longos cursos de capacitação para aprenderem a ser gestores e, assim, buscar sustentabilidade para a instituição que lideram.

Somente para citar um exemplo: por meio de uma parceria firmada com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Petrobrás, finalizamos, após três anos de trabalho, o projeto Desenvolvimento de Princípios de Transparência e Prestação de Contas em Organizações da Sociedade Civil. Durante esse período, foram capacitadas 76 ONGs e 148 lideranças dessas ONGs em 21 cidades gaúchas. Os grupos contaram com o auxílio de profissionais de várias áreas e receberam assessoramento para aplicar ferramentas de transparência e prestação de contas e gestão, além de avaliar aspectos jurídicos, tributários e contábeis. Após as atividades, as organizações seguiram recebendo consultoria de especialistas durante mais dez meses.

Será que essas pessoas são sérias, ou não? Será que elas merecem a nossa admiração, nosso respeito e um braço estendido para ajudar a seguirem adiante, ou não? Peço cuidado, muito cuidado, aos meios de comunicação pelos milhões de pessoas que em boa parte das vezes dependem unicamente dessas ONGs para resgatar alguma dignidade. E que o governo realmente feche as ONGs que estão a serviço de corruptos, mas que não cometa o erro de desvalorizar os milhares de sérias.

Carlos Drummond de Andrade sintetiza muito bem o valor do nosso envolvimento com o outro: “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade”

Comments

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  1. Marcos Silva 10 de Fevereiro de 2012 15:48

    Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I).

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