“Branco sai, preto fica”, um dos filmes mais invocados dos últimos tempos

Década de 1980. Ceilândia, cidade satélite do Distrito Federal. A polícia invade violentamente o “Quarentão”, local onde acontece um baile funk. Um dos policiais grita: branco sai, preto fica. Tem início a pancadaria. Dois jovens negros, dançarinos de funk, Sartana e Marquim do Tropa são duramente atingidos. O primeiro perde uma perna, esmagada pelas patas de um cavalo da cavalaria. O segundo tenta fugir, é atingido por um tiro e fica paraplégico.

É essa história que é contada 25 anos depois pelo diretor Adirley Queirós no “documentário” “Branco fica, preto sai”, um dos mais premiados e elogiados filmes brasileiros dos últimos tempos. Eu estava na cola dele faz tempo. E dando uma incerta no final de semana na Netflix cheguei a ele.

preto1

Trata-se de um dos filmes brasileiros mais invocados que assisti nos últimos anos. Reparem que escrevi a palavra documentário no parágrafo acima entre aspas. Porque não se trata de um documentário puro ou convencional. Incorpora elementos ficcionais incomuns em se tratando de um documentário: nada menos que ficção científica. Esse é um dos recursos usados pelo diretor para contar e costurar a história. Vindo do futuro, em sua nave, que não passa de um contêiner, o detetive Dimas Cravalanças (“agente terceirizado”) tenta reunir provas dos massacres promovidos pelo estado contra as populações negras e marginalizadas.

Ao mesmo tempo acompanhamos a vida atual de Shockito e Marquim do Tropa, marcados definitivamente pela tragédia. Continuam morando em Ceilândia. O primeiro conserta e faz próteses ortopédicas para outros mutilados a partir de sucatas. O segundo mantém uma rádio pirata. Algumas transmissões evocam o passado, a solidão e dor do ex-dançarino. São os momentos mais tristes de todo o filme. “O isolamento desses dois personagens, seus silêncios reveladores e as narrativas dissipadas no passado resultam em um acerto de contas que só pode ocorrer no campo simbólico, posto que não existem direitos para os que vivem à margem”, escreveu Thiago B. Mendonça, no Le Monde Diplomatique.

preto3

“Adirley Queirós enrola esse lado numa narrativa de ficção científica godardiana vertente Alphaville, com um “investigador” enviado do futuro para recolher provas contra o Estado brasileiro, como se tentasse compensar a posteriori aquilo que, hoje, continua por corrigir”, diz o crítico do jornal português Público Jorge Mourinha.

O filme mostra a realidade de Ceilândia, uma cidade feia, onde o poder público chega de forma precária e onde a violência contra pobres e negros é a regra. Em nada diferente de outras periferias de grandes cidades brasileiras. Mas envereda na ficção ao criar uma “polícia do bem estar social” e a exigência de um passaporte para se entrar em Brasilia, deixando claro o apartheid social..

Lendo sobre o filme, fiquei sabendo que Adirley Queirós dirigiu outro documentário, “A cidade é uma só?” (também muito elogiado pela crítica), que tem Ceilândia como cenário. Encontrei esse filme no Youtube e comecei a assistir ontem. Para minha surpresa, Marquim da Tropa e o ator que faz Dimas Cravalanças (Dilmar Durães) estão no elenco.

Surpresa e felicidade grandes tomar conhecimento da obra de um diretor com uma pegada inovadora e voltada para questões sociais que afligem o Brasil de forma atroz há tanto tempo.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo