O Brasil é bom (e o México também é bom, muito bom)

Por Juan Pablo Villalobos
BLOG DA COMPANHIA

No mês de abril deste ano, quando ainda morava no Brasil, recebi pelo correio uma bomba. A bomba vinha embrulhada num livro, o livro tinha na capa uma banana cortada e um garfo, a capa falava que a bomba se intitulava O Brasil é bom e que o terrorista se chamava André Sant’Anna.

Em teoria, eu não gosto das bombas. Na prática, também não. Mas aqui vamos falar de literatura. E, falando em literatura, gosto dos livros que dão pancadas. Socos. Tapas. Chutes na bunda. Gosto dos livros que explodem na mão. Gosto da agressão físico-literária. Sim: tenho uma relação masoquista com a literatura. Para que haveríamos de ler livros autocomplacentes? Qual seria o interesse e a beleza que poderia haver nisso? Não seria, simplesmente, um exercício de narcisismo?

Há mais de dois anos, numa de minhas primeiras colunas neste blog, falei que a maior homenagem que um escritor pode fazer a outro é a inveja. Diante da terrível pergunta, como-é-que-pode-esse-porra-de-escritor-escrever-tão-bem?, a reação natural e lógica, pelo menos para um escritor, é a depressão. Porém, no caso de O Brasil é bom, eu decidi fazer uma coisa mais produtiva: procurar uma editora em espanhol interessada em publicar o livro e fazer a tradução (o que ainda estou tentando).

Nas últimas semanas voltei a pensar com muita frequência neste livro, mas o estranho é que o que me fazia lembrar de O Brasil é bom eram as notícias do México. Peguei o livro para reler alguns contos e então surgiu uma pergunta bem mais interessante, e bem menos megalomaníaca: como-é-possível-que-um-livro-tão-brasileiro-possa-ser-ao-mesmo-tempo-tão-mexicano? Violência, corrupção, mentalidade classista, racismo, desigualdade, pobreza, injustiça… No final das contas, ainda que com história e dinâmicas muito diferentes, ninguém pode negar que Brasil e México são países irmãos.

A leitura de um dos contos do livro, “O Brasil não é ruim”, me sugeriu que, neste momento crítico da história mexicana, a melhor tradução possível para esse conto não seria escrever em espanhol-mexicano “Brasil no es mala onda”, e sim seria adaptar o conto à realidade mexicana e escrever em português “O México não é ruim”. Com certeza isso poderia ser qualificado de plágio, mas na verdade é uma homenagem a André Sant’Anna, uma maneira de canalizar a raiva e a tristeza que os mexicanos sentem hoje, e uma intentona para que os leitores deste blog se aproximem da realidade mexicana.

O México não é ruim

Os policiais mexicanos não são criminosos, já que não prenderam em Iguala 43 estudantes da Escola Normal de Ayotzinapa e não os entregaram ao grupo criminoso Guerreros Unidos, e já que antes disso não atiraram de maneira indiscriminada contra eles nem contra o ônibus dum time de futebol e não mataram 6 pessoas. Os policiais não obedeceram ordens do prefeito da cidade, que não fugiu e não ficou sumido vários dias até que não foi preso na madrugada numa favela enquanto não dormia vestido de terno. Por falar nisso, o exército mexicano também não é criminoso, já que não executou 22 pessoas ligadas ao tráfico em Tlatlaya que não tinham se rendido e não tinham largado as armas. O México não é um lugar onde as pessoas não desaparecem e não está cheio de fossas que não tem milhares de cadáveres.

O governo mexicano não está censurando a liberdade de expressão do povo mexicano, já que não diz que vai reprimir com violência às manifestações pacíficas e não infiltra sujeitos violentos encapuzados nas manifestações pacíficas. Aliás, sujeitos encapuzados não foram filmados viajando em veículos do exército no dia 20 de novembro antes das manifestações. E naquela noite, logo que a manifestação pacífica terminou, policiais não bateram em pessoas inocentes, não incluindo crianças, mulheres nem velhinhos.

O presidente mexicano não tem um conflito de interesses, já que a casa dele, que não custa 7 milhões de dólares, e que não é dele, não está no nome duma construtora que não era fornecedora do governo do Estado de México antes, quando o presidente não era governador do Estado de México, nem agora, quando a mesma construtora não é fornecedora do governo mexicano. E o Ministério de Comunicações não cancelou a concessão do contrato do trem rápido que não iria da cidade do México a Queretaro a um grupo de empresas da qual não participava a mesma construtora, já que, das 17 empresas que não tinham dito que não iriam participar, 16 não se retiraram da licitação. E isso não tem nada a ver com o fato de que os jornais não iam começar a falar da casa do presidente, que não é dele nem custa 7 milhões de dólares, e não está no nome da mesma construtora.

Falando nisso, a casa não é propriedade da esposa do presidente, que não é uma atriz muito famosa que não tem mais de 25 anos de carreira nas novelas da TV. Porém, a outra casa que não é da esposa do presidente não foi um presente da empresa televisora quando o presidente e a atriz famosa não se casaram, e a fazenda pública não perdoou mais de 200 milhões de dólares de impostos à televisora depois.

Os deputados mexicanos não se negaram a pesquisar o conflito de interesses do presidente, já que a maioria dos deputados, que não são do mesmo partido do presidente, não disse que não havia conflito, já que a casa não é da esposa do presidente que não é famosa e não tem mais de 25 anos de carreira nas novelas da TV. Aliás, os deputados mexicanos não mandaram fabricar umas caixas de chocolates com os rostos deles, que não tem uma carinha de deputado em cada chocolatinho e não serão enviadas como presentes de Natal.

Por isso é que o México é bom.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo