O Brasil e o realismo mágico

Quadra estranhíssima e em alguns momentos fantasmagórica essa porque passa o Brasil. Remete à melhor tradição literária do realismo mágico latino-americano. Falta-nos, contudo, um García Márquez para dar conta desse espantoso– e sombrio – momento nacional. Definitivamente, o Brasil não é para amadores.

Pessoas defendem nas ruas a volta da ditadura; professores não podem opinar e estudantes não podem debater; um Nobel é censurado e tem palavras suas retiradas da ata do Senado; um réu, cercado de corruptos processados, conduz um processo de impeachment; um parlamentar glorifica um torturador e escarnece da vítima; pessoas são hostilizadas em locais públicos por suas posições políticas. A mídia assumiu-se como partido político, falta apenas pedir o registro no TSE.

A suprema corte do país julga se as pessoas podem entrar nas salas de exibição com pipoca comprada fora do cinema e engaveta há meses processo contra o presidente da Câmara Federal; um ministro do STF consegue ser mais partidário do que os próprios dirigentes do partido político; Collor apresenta a Temer um projeto de “reconstrução nacional”; Sarney Filho diz que nenhum partido pode se negar a colaborar com eventual “governo de salvação nacional” liderado pelo vice-presidente. O governador Robinson está crente que resolve os problemas do estado com voluntarismo e discursos; a família Alves vira oposição a um Governo Federal; a última reserva moral da nação, Agripino Maia joga um bolão na Arena das Dunas; o Super Homem enfrenta o Batman.

Barragens e ciclovias viram escombros e matam. O país refém de um mosquito e o legado da copa ninguém sabe ninguém viu. “Aqui tudo parece/Que era ainda construção/E já é ruína”.

Pode acabar mundo véio! Pra mim já deu.

Esses são tempos próprios de crises seminais, onde o antigo estrebucha, negando-se a deixar o picadeiro, e o novo ainda não está totalmente pronto para entrar em cena. Resta o consolo de que a história julgará esses dias repletos de mentiras e sordidez. Lá na frente, ficará claro quem se portou com dignidade e quem foi vil.

Teremos muitas e tardias autocríticas e releituras de reputações. Heróis poderão virar vilões e vilões heróis. Aguardemos o veredito da história, que pode tardar, mas não falha. A Rede Globo, por exemplo, levou “apenas” 50 anos para fazer autocrítica pelo apoio à ditadura militar. Nos últimos meses teve uma recaída. Sua reputação voltou ao mesmo patamar da época do outro golpe, o de 1964. Que culpa eu tenho se poucos aprendem com seus próprios erros e se nem todas as autocríticas são sinceras?!

Comments

There are 3 comments for this article
  1. José Saddock 4 de Maio de 2016 20:21

    Artigo certeiro e construtivo, meu caro Tácito; aliás, como todos que tem publicado – Abraço.

  2. Anchieta Rolim 5 de Maio de 2016 11:53

    Na veia, Capitão! Nau à deriva…

  3. Vania Vana Rousseff 7 de Junho de 2016 13:14

    Lula e Dilma que ainda estão soltos quando deveriam estar na cadeia…realmente esse país é uma piada.

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