Brassai

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“Ele estava lá!! Não sei se foi convidado, se estava a trabalho, se estava de passagem, se foi sem querer, se foi sem saber, se foi chamado ou convocado, não sei bem porque mas estava. Brassai estava lá.

Gyula Halasz, ou Brassai (pseudônimo usado a vida inteira), o estupendo fotógrafo que ao longo da vida não se cansou de revelar a glamurosa Paris, estava presente naquele momento mágico, naquela sala, naquele meio, com seu equipamento, cercado por Jacques Lacan (1), Cecile Eluard (2), Pierre Reverdy (3), Louis Leiris (4), Pablo Picasso (5), Zanie Campan (6), Valentine Hugo (7), Simone de Beauvoir (8), Jean-Paul Sartre (9), Albert Camus (10), Michel Leiris (11) e Jean Abier (12). Entre as fotos tiradas por Brassai naquela noite está uma, uma única, uma inesquecível, aquela em que o fotógrafo húngaro ligou o automático e foi se juntar aos demais (13), aquela que entrou para a história.

O dia foi 6 de junho de 1944, e o motivo da reunião era a primeira leitura da peça “O Desejo Pego Pelo Rabo” (“Désir attrapé par la queue”), escrita em 1941 por Picasso, em mais um trabalho surrealista como tudo aquilo que dito moderno naquela época deveria ser. Os presentes, alguns já geniais, outros nem tanto, foram clicados por Brassai e entraram para uma das fotos mais importantes do século XX.

O primeiro à esquerda, em pé, é o ainda jovem Lacan, filósofo, psicanalista, pensador, seguidor de Freud e seguidor de si mesmo depois de mostrar ao mundo os novos caminhos da terapia. Tinha naquele dia ao seu lado Cecile Éluard, filha do poeta surrealista Paul Éluard, e ao lado desta, Pierre Reverdy, poeta francês, surrealista, cubista e elitista (“A carícia é o produto de um longo polimento da bestialidade”). Ao lado deste, Luoise Leiris, esposa de Michel Leiris, que também posa agachado. Michel, antropólogo, escritor, surrealista em 1924, não mais em 29, ensaista (Espelho da Tauromaquia), foi também um amante voraz da cultura africana (A África Fantasma).

Na sequência posa Picasso, que tem a seu lado Zanie Campan, uma jovem atriz, comediante, esposa do editor Jean Abier, que também aparece na foto, agachado, olhando longe da camêra como se namorasse os grandes à procura de seu espaço. Com um lenço na cabeça, logo após Zanie, aparece Valentine Hugo, artista, pintora, nora do grande Victor Hugo, colaboradora de Jean Cocteau, e que ainda não sabia ter a seu lado um dos maiores ícones da literaura feminina do século XX, a não menos grande Simone, La grand Simone de Beauvoir, cuja principal obra “O Segundo Sexo” foi relançada em 2009, em volume único.

Sartre é o primeiro agachado à esquerda, íntimo de todos, mito, lenda, a seu lado o ainda não mito Camus, mas que naquele dia, naquela noite, batia os pés no chão conduzindo a sessão, mudando as cenas, orquestrando os atores-bricando-de-personagens (Leiris fazia o papel de “Pé Grande”, Sartre o de “Ponta Grande” e Beauvoir interpretava a “Prima”).

Brassai viu tudo, fotografou o que pode, revelou o jeito como se juntavam, se entendiam e se entregavam ao surreal com boa bebida, boa comida e com boas risadas até as primeiras horas da manhã, como narra a autora de “Jacques Lacan – Esboço de Uma Vida”, Elisabeth Roudinesco.

Depois daquela noite Brassai continuou em frente, fez bonito na vida, fez as noites ficarem mais íntimas, qualquer uma delas ficou mais fotográfica depois dele. Nunca se separou daqueles seus amigos de 44, fotografando muitos deles novamente, alguns mais do que outros, como Picasso. Tocou uma carreira brilhante, inesquecível, capturando com as lentes a alma parisiense das alamedas famosas, dos cafés ordinários, dos marginais, dos heróis, dos artistas. Ganhou notoriedade, conviveu com Henry Miller, Jacques Prévert, Henri Michaux, Hemingway, e foi também jornalista, pintor, escultor, e escritor, publicando o magnifico “Proust e a Fotografia”, onde analisa o trabalho de Marcel sobre outra perspectiva, outra óptica, numa visão inovadora e fotográfica. Suas imagens ficarão marcadas para sempre, como aquelas inclusas em uma das principais obras de André Breton (Nadja). Suas fotos, hoje digitalizadas, são estudadas por cada iniciante da fotografia, por cada novo voyeur de Paris e por cada um daqueles que amam os personagens daquela foto. Seu trabalho pode ser visto no RMN – Réunion des Musées Nationaux.

Brassai morreu em 7 de Julho de 1984, em Beaulieu-sur-Mer, Alpes Marítimos, no sul da França. Foi enterrado no local que sempre recebe os iluminados, Cimetière du Montparnasse, ao lado de alguns, como Sartre, Beauvoir, Valentine que naquele dia, naquela noite, naquela foto estavam ao seu lado, e que junto dele em Montparnasse ficarão eternamente.”

FONTE: http://cultura.updateordie.com/category/fotografia/

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