Bresser

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Bresser-Pereira nos faz compreender muito mais, com sua clareza e equilíbrio, a história atrapalhada em que estamos metidos

Não tenho competência para resenhar o livro, que trata de sociedade, economia e Estado no Brasil, com ênfase no período que se inicia com o ciclo de modernização desencadeado em 1930, chegando até a consideração dos méritos e dos impasses do governo Dilma. De todo modo, a análise se faz em chave realista e equilibrada, muito longe da histeria crescente e do ódio de classe que emergem agora como uma revivescência estrutural do udenismo e do golpismo. Até onde entendo, Bresser-Pereira combina a identificação de uma arapuca macroeconômica para a qual não surgem vontades políticas capazes de desarmá-la (juros altos e câmbio apreciado) com o esboroamento de qualquer projeto nacional em que um conjunto de forças em coalizão identifique claramente seus antagonistas.

Para reverter a armadilha macroeconômica e promover a retomada do desenvolvimento, propõe um pacto, que não vê ninguém disposto a costurar, entre empresários nacionais, trabalhadores, setores da baixa classe média, unidos contra rentistas, setor financeiro e interesses estrangeiros. Uma espécie de queda de braço brasileira, em que os interesses nacionais passariam a comandar a pauta através de uma inequívoca prioridade dada aos setores produtivos contra os especulativos, contra rentistas maquiados de empresários, contra economistas pagos pelo setor financeiro, contra câmbio e juros promovendo a submissão nacional ao capital internacional, embalados pelo consumismo imediatista.

Interessante, no livro, é a contextualização desse diagnóstico na longa história dos pactos políticos brasileiros: o pacto nacional-popular getulista, que constituiu a nação moderna em sua primeira forma, engolfado pela modernização conservadora da ditadura, sucedido pelo pacto democrático-popular das “Diretas já”, às voltas, no entanto, com a crise da dívida externa e da inflação inercial, rebatida pelo pacto liberal-dependente, em 1991, que controlou a inflação e fracassou em desenvolver a economia e em promover avanços sociais. O período Lula/Dilma é marcado pelas ambivalências do seu sucesso-fracasso, e por uma complicada coalizão de classes e de interesses contraditórios que não pode ser definida, afinal, nem como liberal-dependente nem como nacional-popular. Talvez como um desenvolvimentismo social vigorando em campo liberal, que não atendeu, segundo Bresser-Pereira, “à condição essencial do novo desenvolvimentismo: manter a taxa de câmbio do país competitiva”.

Deixo de lado todas as questões que não cabem aqui, mais aquelas que eu não saberia discutir, para me ater a um ponto só. É significativo que a aliança de classes proposta por Bresser-Pereira, embora centrada na figura do empresário nacional prejudicado, pareça uma atualização daquela, nacional-popular, que provocou o golpe de 1964, como se o tempo voltasse sobre si mesmo, girando sem saltar adiante. Naquele momento, a ideia de povo, que tinha um papel crucial no discurso político, era concebida na esquerda tradicional como uma ampla aliança entre trabalhadores, classes médias progressistas e empresários nacionais contra o latifúndio e os interesses estrangeiros.

É claro que o quadro agora é infinitamente mais complexo. Mas me chama a atenção a volta subjacente do significante “nação”, que supõe o significante “povo”. Pois, para o autor, se não estou enganado, nessa fase de avanço em direção à justiça social, e na impossibilidade concreta de saltar diretamente ao socialismo, não há nação se não há uma aliança de classes (burguesia nacional e trabalhadores) articulada com o Estado, para fazer avançar o capitalismo interno, confrontando os interesses do capital internacional.

Não sei avaliar o quanto há de atual e de defasado nessa visão de uma espécie de alma nacional que se evapora da vida brasileira e que não encontra mais os atores em que se encarnar. Mas Bresser-Pereira nos faz compreender muito mais, com sua clareza e equilíbrio, a história atrapalhada em que estamos metidos.

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