Breve anotação sobre um anjo terrível

Por João Batista de Morais Neto

Foi através da revista Singular & Plural (nº 1, 1978), que tomei conhecimento, ou melhor, me aproximei da poesia intrigante do paulista Roberto Piva. Seu texto poderosamente anárquico ali se insurgia contro todo o bom-mocismo da época, e já era assim desde a década de 60. E contra toda e qualquer moral repressiva, ele gritava: “Nestes dias em que meus únicos companheiros foram a música de Mautner & algum garoto triste conquistado de madrugada em alguma esquina da solidão, eu sei que foram vocês que exilaram Gregório de Matos, enforcaram Essenine, apertaram o revólver musical de René Crevel, internaram Artaud, o Momo, no manicômio”.

E isso já era o bastante para afirmar a sua irreverência crítica, sua astúcia e guerrilha poética. Pouco tempo depois, chega às minhas mãos o volume 26 Poetas Hoje, a famosa antologia de Heloísa Buarque de Hollanda. Para quem queria conhecer melhor uma obra tão desbragadamente curiosa e importante, esse livro apresentava uma boa reunião de poemas pivianos. É interessante notar que esse material, em sua maioria, é já uma produção do início dos anos 60, ao contrário dos outros poetas ali incluídos.

A poesia desse maldito declarado é influenciada pela leitura de nomes importantíssimos, desde representantes do Expressionismo alemão, do Surrealismo, da Semana de 22, das poesia beat norte-americana. Seus textos entremeados de citações remetem-nos a esses referentes todos, de forma sempre fragmentada, e que, por tal razão, causa-nos um estranhamento poético que não deixa de ter relação com o seu próprio temperamento rebelde.

O texto de Piva é agressivo e anarquicamente erudito. Paradoxo? Ou será que um “marginal” não pode estar muito bem informado quanto ao melhor da literatura do planeta? Podemos dizer que a sua poesia ainda é uma arte do signficado, se quisermos levar em consideração questões formalistas. Mas nem tudo. Os seus textos longos passam-nos um conteúdo caústico. Mas esse discurso, por ser fragmentado, embaralha a sintaxe, desbundando-a (considerem a expressão!).

Em seu primeiro livro, Paranóia (1963), há versos assim: “Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci/… onde manifestos niilistas distribuindo pensamentos furiosos puxam a descarga sobre o mundo/… onde borboletas de zinco devoram as góticas hemorróidas das beatas”. Trata-se, é claro, de uma poesia que saúda o delírio em detrimento da razão constituída. E ele mesmo confessa no prefácio ao seu livro 20 Poemas com Brócolis: “´O poeta faz-se vidente mediante um longo, imenso e sistemático desregramento de todos os sentidos’. Assim Rimbaud definia a passagem da Poesia para a Vidência. Tendo essa afirmação em mente, o leitor deve entrar neste livro para percorrer as veredas do Sonho & da Paixão através das quais chegue a reunir estes estilhaços de visões”. Mais uma vez, estamos diante de um caso em que vida e obra são inseparáveis. Diz Piva a título de teoria e prática de sua obra: “Só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”.

Essa poesia, que é uma celebração orgiástica, feita de imagens delirantes e de uma modernidade, por que não dizer, originalíssima, é também um convite ao sonho, à libertação do tédio alienante do cotidiano capitalista. Em seu Pornosamba para o Marquês de Sade, ele escreve: “Esta homenagem coincide com a deterioração da Bastilha Sul-Americana minada pela crise de corações & balangandãs econômicos onde se mata de tédio o poeta & de fome o camponês”. O poeta e crítico Régis Bonvicino é feliz quando afirma que “o boêmio Piva não pode, entretanto, ser acusado de alienado. Nem burgueses nem operários compreendem, como diz um dos versos deste poeta, que ´têm poemas que abrem brechas na realidade’”.

Feito um anjo terrível, rilkeano, ele canta tudo isso, essa santa marginalidade, como que evocando São Genet, com sua linguagem tipo uma lâmina brilhante e bem afiada, cheia de “imagens violentas”. Piva surge e se insurge entre nós como um dos melhores poetas brasileiros dos últimos anos. Pois ele sabe que a utopia, na qual acredita, é o único lugar habitável pelo poeta. Qual Pasárgada. Em sua revolta, atentando para o seu mais significativo modelo, ele revela-se “contra tudo/por Lautréamont” e assim pinta e borda a ironia de sua linguagem. Piva, o enfant terrible, o “menino impossível” de Jorge de Lima. Falar sobre ele e sua obra é tarefa que nos obriga a exigirmos nossa cota de ócio, para que possamos lê-lo e descobri-lo em trabalho onírico, que reclama uma realidade sempre nova, reinventada, em que a poesia ligada à vida, exige prazer e liberdade.

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