Breve notícia de Joca Reiners Terron

“A literatura é uma imensa teia de aranha. Você pode ser pego por ela ou não. Se for enredado, poderá seguir infinitamente pelas ramificações da teia, indo de um autor a outro, entrando em Charles Bukowski e descobrindo John Fante e divertindo-se e amenizando um pouco a solidão da existência, enquanto foge da aranha. Com a web não é diferente, suponho. Sem direito a uma educação formal, porém, só nos resta a aranha”. É com esse engenhoso apólogo que o escritor Joca Reiners Terron expressa sua relação com os livros e a literatura.

Quem é Joca Reiners Terron? Confessamos que não o conhecíamos até a semana passada, quando abrimos a edição do jornal literário Rascunho, (julho, 2010), deparando com a entrevista feita pelo seu editor, Rogério Pereira, com esse escritor.

Não é difícil desconhecer autores num país das dimensões continentais como o nosso, compartimentado por tantos muros internos, reais ou virtuais, mas eficazes na produção do isolamento. Daí a importância de uma publicação como o Rascunho, feito lá em Curitiba, no Paraná, mas propondo um diálogo com um número cada vez maior de autores de todo o país.

Cuiabense, nascido em 1968, fixado em São Paulo, capital, Joca Reiners Terron é autor de dois romances: “Não há nada lá”, e “Do fundo do poço se vê a lua”, do livro de poemas “Animal anônimo”, e dos livros de contos “Hotel Hell, curva de rio sujo” e “Sonho interrompido por guilhotina”. Regalado recentemente com uma bolsa do projeto “Amores Expressos”, passou um mês no Egito para escrever as impressões que a viagem lhe causaria, no que resultou o romance “Do fundo do poço se vê a lua”.

Reiners Terron revela, ao longo da entrevista, uma reserva de argumentos e informações literárias que contrastam visivelmente com a casmurrice de certos escritores, avessos a falar de si ou de sua obra. Comunga com o americano Paul Auster da filosofia de que só existe vida quando narrada, o que remete diretamente às modernas histórias de vida, cujo precursor é o filósofo Wilhelm Schapp, autor que ousou dizer num livro revolucionário, infelizmente ainda não traduzido em português, que “só há vida na narrativa”. Antes deles, porém, Mallarmé já havia dito que “tudo existe para terminar num livro”…

A ausência de crítica literária especializada é um tópico que Reiners Terron não deixa passar em brancas nuvens. Mas faz questão de precisar a que se refere: “Faltam críticos com visão panorâmica do que está sendo produzido atualmente na literatura brasileira”. Mais adiante, especificará que “fazem falta escritores que não queiram ser somente narradores, poetas, cronistas, dramaturgos […] e que compreendam que existe uma imensa necessidade de reflexão e que isto também é produção criativa”. É uma preocupação pertinente, na medida em que a falta de boa crítica dificulta e retarda, com certeza, o processo de divulgação e reconhecimento da obra de ficção, justo num momento em que a literatura brasileira passa por uma enorme efervescência criativa de Norte a Sul.

Ao leitor atento e perspicaz, não passa despercebido o tratamento diferenciado que o editor Rogério Pereira brinda ao escritor cuiabense, prestando-lhe um tratamento próprio aos autores canônicos. Certamente, repercutindo ecos de um processo em desenvolvimento nesse sentido, pois, numa das perguntas, acrescenta, a título de exercício de reverência, o revelador aposto: “O senhor é considerado um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea”, frase que o entrevistado não se dá ao trabalho de contestar.

Com diversos projetos em andamento, Rainers Terron é um genuíno escritor dos tempos de hoje: sempre em débito com o cronômetro, administrando vários trabalhos simultaneamente, tentando dar conta de contratos com editores, frequentando encontros literários para audições de leitura e debate de seus contos e poemas, integrando fóruns de discussão na internet. Se alguém achar que esse é um ritmo de vida inconveniente para um escritor, bem, então é melhor repensar a opção que porventura fizer por esse ofício.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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