Breves anotações sobre o jornalismo de “Spotlight…“ e o brasileiro

Por Tácito Costa

No final de semana assisti em casa “Spotlight – Segredos Revelados”, vencedor do Oscar 2016 de Melhor Filme. Ganhou pela importância e grande repercussão do tema que abordou. A rede de pedofilia da Igreja Católica em Boston, desbaratada após uma série de reportagens do jornal Boston Globe. O trabalho levou à época, década de 1990, um merecido Pulitzer.

Para mim, em termos estritamente fílmicos, está no mesmo patamar de “A Grande Aposta”, que também concorreu a Oscar de Melhor Filme.

Dirigido por Tom McCarthy (O Agente da Estação, Trocando os Pés), o drama, sóbrio e respeitoso com as vítimas, tem no excelente elenco, Michael Keaton, Mark Ruffalo Rachel McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci e Billy Crudup seu maior trunfo. Remeteu-me a um dos ícones do gênero, “Todos os Homens do Presidente”, que também teve conseqüências de repercussão mundial, a queda do presidente Nixon.

Baseado em fatos reais, “Spotlight – Segredos Revelados” mostra que a rede de pedofilia não teria atingido os níveis que atingiu, mais de 900 casos de abusos, se não contasse com a leniência do judiciário, da ação de advogados sem escrúpulos e da conivência da alta cúpula da igreja e do poder de Boston.

O filme, porém, não remete somente a outros filmes que exploram o lado meio romântico e idealista do jornalismo (acreditem, a realidade é bem diferente), como “Todos os Homens…”, citado mais acima, “Síndrome da China”, “Boa Noite, Boa Sorte”, “A Vida de David Gale”, “Os Gritos do Silêncio” entre outros. Sobretudo para nós jornalistas. Remete ao nosso trabalho passado e presente, como a decadência do jornalismo impresso, e aponta para um futuro preocupante, que ninguém sabe ao certo onde irá dar.

Vi o filme no sábado. No domingo, como sempre, passei na Saraiva, do Midway, para ver as novidades. Nenhum livro chamou-me atenção, poucos lançamentos este ano até agora (entre eles, “A definição da arte”, de Umberto Eco – ensaios escritos entre 1955 e 1963, que revelam a evolução temática que conduziu o autor às suas formulações posteriores, à noção de ‘obra aberta’).

O mesmo não posso dizer das revistas. Esta semana a troika semanal (Veja, Isto É e Época) se superou. Estavam impagáveis em seus desvairados antijornalismo. A Veja fez inveja aos melhores ficcionistas do país, inventou um tal de asilo político de Lula, desmentido categoricamente no dia seguinte. Virou meme e galhofa na Internet, tamanho foi o disparate.

Caso alguém espremesse as três respingariam má-fé, desonestidade e ódio. Eu limitei-me a olhar as capas, com afastada prudência, dedos tapando o nariz e segui em frente para o café semanal no São Braz com os escritores Demétrio Diniz e Aldo Lopes, refletindo sobre o abismo entre o jornalismo praticado em “Spotlight…”  e por esses pasquins brasileiros, que caminham para ocasos melancólicos.

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