Breves apontamentos no calor dos acontecimentos

Foto: ANSA.

Repudio radical e incondicionalmente os bárbaros massacres de Paris e me solidarizo com os familiares de todas as vítimas e com o inteiro povo francês (expressão que inclui todos os descendentes de árabes nascidos na França e todos os muçulmanos do país). Mas, neste momento de choque, indignação e incredulidade, é urgente e necessário levantar algumas reflexões.

Primeiro, é preciso se perguntar QUEM SÃO os autores dessa barbárie. Será que são todos fanáticos vindos de fora do país? Ou são FRANCESES muçulmanos, ou seja, fazem parte de um grupo social que, mesmo tendo nascido na França, é tratado como escória (não que esse tratamento seja justificável com quem é de fora, mas a raiva e frustração que produz em quem, em tese, é “cidadão” do país são infinitamente maiores), marginalizado no sistema educacional, repelido pelo mercado de trabalho, segregado em guetos violentos, sendo seus membros considerados “bandidos” a priori pelos “cidadãos de bem” brancos e cristãos e pela polícia que os espanca ou atira neles antes de perguntar, enxergados a priori como “terroristas” apenas por serem islâmicos? Se essa segunda hipótese, a de que os autores dos ataques são muçulmanos franceses, se confirmar cabe se perguntar: qual o papel das políticas, os discursos, as práticas cotidianas, as mídias etc. da França e do resto do Ocidente na produção de subjetividades como as que cumpriram os massacres de hoje?

Segundo, o que ocorreu não tem ABSOLUTAMENTE NADA A VER com as centenas de milhares de refugiados que todo dia, após terem perdido tudo e terem tido suas vidas destruídas, arriscam o fiapo que lhes resta dessas vidas em êxodos infernais na busca desesperada de chegar à Europa e reconstruir suas existências, nem com aqueles que depois de passar por esse périplo já estão lá e, diariamente, sofrem discriminação institucional e nas ruas. Esses são VÍTIMAS do terrorismo (o dos grupos fundamentalistas, o dos regimes apoiados por potências ocidentais e não-ocidentais que esses grupos combatem e o das próprias intervenções militares ocidentais em seus países), tanto quanto os franceses assassinados nos ataques.

É imprescindível ressaltar essas questões, para evitar que a onda xenófoba e racista que já atravessa subterraneamente a Europa – e não só, como mostram os comentários de muitos brasileiros nas páginas que estão noticiando os massacres – emerja na forma de um tsunami neonazista que torne as políticas de imigração da União Europeia ainda mais criminosas e fechadas, que produza novas ações militares sangrentas no Oriente Médio e, como sempre, faça pagar o preço dessa barbárie àqueles que desde sempre já são suas vítimas.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP