Brincando de Deus

Por Heverton de Freitas
NO NOVO JORNAL

O jornal O Estado de S. Paulo trouxe esta semana uma matéria
sobre o primeiro bebê brasileiro selecionado geneticamente
em laboratório para poder doar a medula óssea à irmã
que sofre de talassemia major, uma doença do sangue e que
pode levar a morte.

A técnica já é conhecida há pelo menos 15 anos nos países
mais desenvolvidas e agora chegou ao Brasil. Consiste em
selecionar um embrião saudável que não carreguem o mesmo
gene que causou a doença na irmã e completamente compatível
para que seja feito o transplante de sangue do cordão
umbilical.

A irmã da bebê que acaba de nascer tem cinco anos, convive
com transfusões sanguíneas a cada três semanas, e toma
um remédio diariamente para reduzir o ferro no organismo
desde que tinha cinco meses de idade. Essa doença faz com
que a medula óssea produza menos glóbulos vermelhos e,
portanto, não consegue fabricar sangue na quantidade necessária
o que causa anemias graves. Existe até uma associação
que reúne as 700 pessoas no Brasil portadoras da talassemia
major.

Por essa breve descrição do que é a doença e das suas consequências
não há dúvidas de que todo o esforço da ciência
para curar as pessoas que sofrem desse mal é elogiável. O que
surge aqui é uma discussão de caráter religioso-fi losófi co sobre
a biologia molecular e a produção em laboratório de seres
humanos com características pré-selecionadas. Em outras palavras:
a possibilidade de se criar o ser humano perfeito. Hoje
uma utopia, mas amanhã quem sabe uma realidade.

Para a seleção desse bebê sem o gene que gera a doença e
compatível com a irmã, os cientistas coletam uma célula do
embrião para fazer a análise molecular, verifi cando 11 regiões
do DNA, sendo dois relacionados ao gene alterado e nove relacionados
à compatibilidade.

O objetivo dos pais ao partir para isso era nobre, o avanço
da ciência permite buscar essa solução para dar qualidade de
vida para a fi lha, mas sempre fi ca o dilema sobre os embriões
que foram produzidos e acabaram descartados. Nesse caso,
foram gerados seis embriões na primeira tentativa, todos descartados
porque tinham a doença ou porque não eram compatíveis
com a irmã que precisa da doação.

Na segunda tentativa, o casal conseguiu produzir dez embriões,
dos quais apenas um não tinha a doença e era 100%
compatível. Ou seja, outros nove foram descartados.
É difícil até para formar uma opinião sobre o assunto. Afi –
nal, esses embriões tinham ou não vida? São ou não são espíritos
já encarnados? Tem ou não o homem o direito de selecionar
quem vai nascer?

As respostas fi cam para a refl exão de cada um dos leitores.

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