Brothers

Por Carlos Alberto Barcellos
VIA CONTEÚDO LIVRE

O show não pode parar. Mário de Andrade, autor da obra e leitura obrigatória chamada Macunaíma, tinha razão. O Brasil é uma grande Macunaí- ma. Um país de marombados, desdentados, de viagens para a Disney e a cultura do crack pedindo passagem.

Que país é esse? O tal Big Brother reflete esse cenário de embrutecimento da alma humana. Qual a matéria jornalística que está bombando? A história da relação sexual de um brother e uma sister passado em horário sem nenhuma censura prévia. Quem pode pagar a TV por assinatura vê aquilo que ninguém vê, sem nenhum trocadilho com quem passa o programa.

Sensacionalismo, vulgaridade, mediocridade vendidas ao vivo para nossa intelectualidade. Penso, às vezes, que imaginam que somos um bando de cérebros sem neurônios. Tudo vale e tudo é permitido. Um simples olhar em qualquer programa dos brothers descortina o incentivo e a licenciosidade com que o álcool é tolerado.

Essa juventude confinada é, querendo ou não, uma referência para a galera que está de fora da casa. Um preço módico de um telefonema elimina esse ou aquele albergado. Uma soma vultosa construída na sede de nossa vaidade. Simples, eliminamos quem não gostamos ou quem compete conosco.

Um apresentador que insiste em nos vender a imagem que eles, os brothers, são nossos heróis. Heróis ? As longas filas nos postos de saúde desvelam essa enganosa verdade, plantada todas as noites em tempos de verão, férias para muitos. Um país de contradições paralisa em torno das 22h. Vivemos tempos da casa mais vigiada do Brasil.

Em tempos de cultura descartável, todos os brothers farão parte desse universo, de uma memória a ser deletada no próximo verão. Afinal, o show deve continuar. Para não passar batido, esse cenário também passa nas outras mídias. Pensar dói e incomoda.

É mais fácil digerir o que já vem pronto, muitas vezes travestido com uma roupagem nova. Engolimos lixo, muitas vezes, sem nos darmos conta. Continuamos sendo enrolados com as grades de vidro que vemos. Elas nos dão a falsa impressão de liberdade. Somos moralistas para questões políticas e liberais para tudo o que deveria ser central e vital na vida humana. O Big Brother passa uma mensagem perigosa de que tudo é permitido. Vale tudo.

Se, por acaso, tudo não passar de um jogo de cena, um teatro grotesco e grosseiro, devemos estar ligados para não cair nessa roubada. Daniel e Monique, os brothers que estão no ar agora, cairão no esquecimento como qualquer lixo cultural. Em tempos futuros, quem sabe discutiremos o show das dez da noite. Doze anos no ar, há lições para serem aprendidas.

Essa Macunaíma chamada Brasil está a exigir de todos nós uma capacidade para discernimos o que é vulgar e ético. A verdade é que sempre seremos livres para aceitarmos uma situação imposta. A questão não é apenas trocar de canal, isso seria muito simplismo de nossa parte. Hoje, assistimos ao show do álcool liberado. Amanhã, assistiremos, na casa dos brothers, a quê?

Ainda temos tempo para olhar um novo jeito de educar para a sensibilidade. Apresentar o vazio para dizer como deve ser o contraponto deve nos colocar antenados no jogo das entrelinhas. Vamos lá fazer o que será – diria Gonzaguinha.

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