A bruxaria literária de Clarice Lispector

BENJAMIN MOSER
tradução PAULO MIGLIACCI
Ilustríssima/Folha de São Paulo

O americano biógrafo de Clarice Lispector (1920-77) reuniu, pela primeira vez, todos os contos da escritora no livro “The Complete Stories” (New Directions). Abaixo, um trecho do ensaio de introdução ao volume, recentemente lançado nos Estados Unidos e ainda sem previsão de ser publicado no Brasil.

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“Renuncias ao glamour do mal”, pergunta-se durante a missa de Páscoa nos países anglófonos, “e recusas ser dominado pelo pecado?”. A questão preserva uma ligação, hoje rara, entre glamour e feitiçaria; o glamour era uma qualidade que confundia, alterava formas, investia a coisa de uma aura misteriosa; nas palavras de sir Walter Scott, tratava-se do “poder mágico de afetar a visão dos espectadores, de modo que a aparência de um objeto se torne totalmente diferente da realidade”.

A lendariamente bela Clarice Lispector, alta e loira, adereçada com os vistosos óculos escuros e as joias volumosas que caracterizavam uma “grande dame” do Rio de Janeiro na metade do século 20, correspondia à definição atual de glamour. Ela foi jornalista de moda por anos, e sabia como se vestir para o papel, mas é no sentido mais antigo da palavra que Clarice Lispector é glamourosa: como lançadora de feitiços, literalmente encantadora, seu nervoso fantasma assombrando todos os ramos da arte brasileira.

Seu feitiço só fez crescer desde sua morte. Então, em 1977, teria parecido exagero afirmar que ela era a escritora moderna proeminente de seu país. Hoje, quando a afirmação já não seria exagerada, questões de importância artística são, em alguma medida, irrelevantes. O que importa é o amor magnético que ela inspira naqueles que são suscetíveis a sentir o seu apelo. Para eles, Clarice é uma das grandes experiências emocionais de suas vidas. Mas seu glamour é perigoso. “Cuidado com a Clarice”, disse um amigo a um leitor décadas atrás. “Não é literatura, é bruxaria.”

A conexão entre literatura e bruxaria tem sido há muito tempo parte importante da mitologia de Clarice Lispector. Essa mitologia, com um poderoso empurrão da internet, desenvolveu ramificações tão barrocas que hoje poderia ser definida como um ramo menor da literatura brasileira. Circula incansavelmente on-line toda uma obra fantasma, em geral “profunda” e respirando paixão. On-line, igualmente, Clarice adquiriu um corpo paralelo póstumo, já que fotos de atrizes que a retrataram são constantemente reproduzidas no lugar da original.

Mesmo que a tecnologia tenha mudado suas formas, a mitificação em si nada tem de novo. Clarice Lispector se tornou famosa ao publicar “Perto do Coração Selvagem”, no final de 1943. Ela havia acabado de completar 23 anos, uma estudante obscura de origem imigrante pobre; seu primeiro romance teve tão grande impacto que um jornalista escreveu: “Não temos registro de uma estreia mais sensacional, que tenha elevado a tão grande destaque um nome que, até pouco antes, era completamente desconhecido”. Mas apenas algumas semanas depois desse nome começar a ser conhecido, sua portadora partiu do Rio de Janeiro.

LENDAS

Por quase duas décadas, ela e o marido, diplomata, viveram no exterior. Ainda que visitasse seu país regularmente, não voltou em definitivo até 1959. Nesse meio tempo, as lendas floresceram. Seu estranho nome estrangeiro se tornou tema de especulação –um crítico imaginou que pudesse ser pseudônimo– e outros imaginavam se ela não seria, na verdade, um homem.

Somadas, essas lendas refletem uma inquietação, um sentimento de que ela era algo diferente do que parecia: “que a aparência de um objeto seja totalmente diferente da realidade”.

A palavra “aparência” precisa ser enfatizada. Uma bela esposa de diplomata, aparentemente um pilar nada ameaçador da burguesia brasileira, produziu uma série de escritos em linguagem tão exótica que, nas palavras de um poeta, “a estranheza de sua prosa” se tornou “um dos fatos mais esmagadores… na história de nossa língua”. Havia algo nela que não era o que parecia, uma estranheza muitas vezes registrada por aqueles que encontram sua escrita pela primeira vez. Mas isso raramente foi articulado tão bem quanto no final de sua vida, no meio da ditadura militar, quando ela se viu sujeita a uma rigorosa verificação, e revista física, no aeroporto de Brasília.

“Tenho cara de subversiva?”, ela perguntou à segurança. A mulher riu, e depois deu a única resposta possível: “Até que tem”.

Um velho dicionário escocês aponta que “glamour” é uma referência metafórica à “fascinação feminina”. E é uma curiosidade etimológica que a palavra derive de “grammar” (gramática). Na Idade Média, esta última palavra descrevia qualquer erudição, mas particularmente o saber oculto: a capacidade de encantar, de revelar objetos e vidas como “totalmente diferente da realidade” da aparência externa. Para uma escritora, especialmente uma escritora renomada por revelar as realidades ocultas das vidas visíveis por meio de uma sintaxe deslizante, mutável, a associação é irresistível, e ajuda a explicar a “fascinação feminina” que Clarice Lispector exerceu por tanto tempo.

Nos 85 contos deste livro, Clarice Lispector conjura, acima de tudo, a escritora. Da promessa adolescente à maturidade confiante, e à implosão de uma artista quando se aproxima da morte –e a invoca–, descobrimos a figura, maior que a soma de suas obras individuais, amada no Brasil. Falar de João Guimarães Rosa é falar de “Grande Sertão: Veredas”. Falar de Machado de Assis é, da mesma forma, falar de seus livros, e, só depois,do homem notável por trás deles. Mas falar de Clarice Lispector é falar de Clarice, o prenome pelo qual ela é universalmente conhecida: da mulher em si. De seu primeiro conto, publicado aos 19 anos, ao último, encontrado em fragmentos dispersos depois de sua morte, acompanhamos uma vida de experimentação artística por uma vasta gama de estilos e experiências.

Essa literatura não é para todo mundo: até mesmo alguns brasileiros altamente letrados se sentem perplexos diante do fervor intenso que ela desperta. Mas para aqueles que a compreendem instintivamente, o amor pela pessoa de Clarice Lispector é imediato e inexplicável. Sua arte nos faz desejar conhecer a mulher; e ela é uma mulher que nos faz desejar conhecer sua arte. Este livro oferece uma visão de ambas as coisas: um retrato inesquecível, na e por meio da arte daquela grande figura, em sua grande e trágica majestade.

TODOS JUNTOS

Boa parte deste livro não tem precedentes. Pela primeira vez em qualquer idioma –incluindo o português– todos os contos de Clarice estão reunidos em um só volume, entre os quais o primeiro “Cartas a Hermengardo”, que descobri em um arquivo. Essa obra incomum oferece novas provas da importância do Spinoza que ela leu quando estudante, uma influência que ecoaria por toda a sua vida.

Por mais empolgantes que esses marcos bibliográficos sejam para o pesquisador ou biógrafo, algo de muito mais surpreendente aparece quando essas histórias são por fim vistas por inteiro. Trata-se de um feito de cuja importância histórica a autora não podia estar consciente, pois só retrospectivamente ele seria capaz de surgir. E sua força seria consideravelmente diminuída se fosse uma expressão ideológica em lugar de uma derivação natural das experiências da autora.

Esse feito jaz na segunda mulher que ela conjura. Se Clarice Lispector era uma grande artista, era também uma mulher casada e mãe de classe média. Se o retrato da artista extraordinária é fascinante, o mesmo vale para o retrato da dona de casa comum cuja vida é o tema deste livro. À medida que a artista amadurece, a dona de casa, igualmente, envelhece.

Quando Clarice é uma adolescente desafiadora, tomada pelo senso de seu próprio potencial –artístico, intelectual, sexual–, o mesmo vale para as meninas de suas histórias. Quando, em sua própria vida, o casamento e a maternidade tomam o lugar da infância precoce, seus personagens também amadurecem. Quando seu casamento fracassa, quando seus filhos partem, essas partidas aparecem em seus contos. Quando Clarice, no passado tão gloriosamente bela, vê seu corpo “sujo de gordura e rugas”, suas protagonistas veem o mesmo declínio; e quando ela confronta a decadência final da idade, doença e morte, elas estão ao seu lado.

Temos aqui um registro de toda a vida da mulher, escrito ao longo de toda a vida da mulher. E, nesse aspecto, ele parece ser o primeiro registro tão completo escrito em qualquer país. Essa afirmação abrangente requer ressalvas. A vida de uma mulher casada e mãe; a vida de uma mulher ocidental, burguesa e heterossexual. Uma mulher não interrompida: uma mulher que não começou a escrever tarde, ou parou ao se casar e ter filhos, ou sucumbiu às drogas e ao suicídio. Uma mulher que, como muitos escritores homens, começou na adolescência e continuou a escrever até o fim. Uma mulher que, em termos demográficos, era exatamente como a maioria de seus leitores.

A história deles foi escrita apenas em parte. Antes de Clarice, uma mulher que escrevesse ao longo de sua vida –e sobre sua vida– era rara a ponto de ser inédita. A afirmação parece extravagante, mas não identifiquei quaisquer predecessoras.

BENJAMIN MOSER, 38, escritor e tradutor americano, é autor de “Clarice,” (Cosac Naify).

PAULO MIGLIACCI, 47, é tradutor

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