Buquinando em Sampa

VI- Histórias de Sebos e Livrarias

Mês de Janeiro, mês de férias para alguns, para mim mês de peregrinação pelos templos sagrados dos sebos de Sampa. Nem sei bem o que procuro, mas procuro alguns livros e outros nem tanto. Num sebo de vários andares perco-me de tanto entrar e sair de salas, cada uma dedicada a um assunto. Na sala dedicada aos estados, o RN parece algo exótico ou desconhecido porque não consta nada.

De tanto procurar me deparo com uma edição belíssima do Orlando Furioso com ilustrações do Gustavo Doré. Ajoelho-me para contemplá-la e beijá-la qual um ícone bizantino. Tomo coragem e pergunto o preço daquele relicário. O português diz que aquele é um livro orgulho do sebo e não faz questão de vender, mas o preço é dois mil dólares. Estava disposto a voltar de ônibus, mas feliz, saí triste. O pobre pode ganhar o reino do céu, mas não aquela relíquia. No meu céu elas são necessárias.

Noutro dia, na Angélica, encontro a primeira edição da cidade do Natal, do Cascudo, isto já à tardinha, após ter passado horas na casa-templo–sebo do Garaldi. Estou feliz e sem almoçar. O já meu amigo Garaldi dá uma carona até o ponto do ônibus e me oferece uma banana, no bom sentido, é claro, agradeço a sua gentileza.

Já é outro dia e estou na praça da sé indo em direção ao Sebo do Brandão. No caminho entro em um sebo que, para andar no primeiro andar é preciso ser um equilibrista. É um corredorzinho com muitos de e teto muito baixo, Saí ileso porque no Brandão saí liso. Encontrei algumas raridades, mas a preços compatíveis, segundo eles.

No Calil vou várias vezes e passo horas agradabilíssimas. O que eles têm de conforto e organização tem o librarium no paraíso, de aperto e bagunça. Pergunto por um livro e o dono diz não ter. Começo a mexer nos livros e eis que um dos livros que procurava cai em minha cabeça. Vou tirar um outro e caem dezenas em cima de mim. Preciso ter cuidado, mais ainda quando o dono diz que lá no fim da casa, com livros por tudo que é lado, tem cachorro brabo. Essa bagunça também faz parte da iniciação.

Agora, estou indo na livraria Kosmos e encontro livros interessantíssimos e a preços bem acessíveis. São livros de arte e de edição própria. Livro como o catálogo Bosch da brasiliana. Me entusiasmo e compro vários livros e quando vou saindo, quase desmaio de tanto peso. Vou penso, mas feliz, ou como diz o filósofo, se penso logo existo. E assim vou eu, tal qual um sísifo moderno carregando livros daqui pra ali e de lá pra cá. A felicidade pode ser isto.

Evoé Sebo!

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

14 + 11 =

ao topo