Cabral entre a liberdade e o rigor

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Em entrevista a Mário Cesar Carvalho, datada do ano de 1988, o poeta João Cabral de Melo Neto me ajuda a entender melhor o que é a “voz interior” que um escritor deve procurar para chegar a ser dono de sua escrita. Diz Cabral: “Você tem que criar sua arte poética. Ninguém pode escrever um verso livre. Você tem que descobrir suas regras e, embora não sejam regras consagradas, são regras que você respeita religiosamente. Desde o momento em que você as respeite, está exigindo de você maior trabalho e uma coisa que você faz com inteligência e trabalho é forçosamente melhor”.

Criar o próprio caminho. Erguer os próprios limites. Determinar – seja ela qual for – a própria direção. A isso chamo “cair em si”. A queda necessária em si mesmo, sem a qual nenhum escritor consegue chegar a uma arte própria. Mas João Cabral não pensou sempre da mesma maneira e, na verdade, os pensamentos não são tão simples. Eles oscilam, são cambiantes, instáveis. Eles estão vivos.

Trinta e cinco anos antes desta entrevista, Cabral deu uma outra entrevista, dessa vez ao poeta Vinicius de Moraes, publicada na revista “Manchete”, em que diz: “Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de voltar às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria para mim como banir a poesia do mundo moderno”. Verso livre, ou verso regrado? Cabral sempre oscilou entre as duas idéias. Podemos pensar assim: verso regrado, mas regrado com absoluta liberdade.

Até escrever “A educação pela pedra”, de 1965, Cabral só escrevia em versos de no máximo oito sílabas. Neste poema, decidiu que trabalharia com versos que tivessem pelo menos nove sílabas. “O meu esforço foi escrever um verso mais largo, mas sem cair na retórica, sem aguar o verso”, explicou em entrevista a José Carlos de Vasconcelos, do Diário de Lisboa, concedida em 1966. Faço uma pausa para esclarecer que retiro todos esses trechos de entrevistas do livro “Idéias fixas de João Cabral de Melo Neto”, precioso guia dos pensamentos do poeta publicado em 1998 pela Nova Fronteira em parceria com a Universidade de Mogi das Cruzes.

Mas _ novo salto _ em 1988, na entrevista já citada a Mário César Carvalho, Cabral diz: “Uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar você tinha que trabalhar seu texto”. Com isso, retirava da poesia o inútil. Chegava ao osso do poema _ chegava ao poema. Depois, em conversa com o artista plástico Carlos Carvalhosa, um ano mais tarde, Cabral insiste: “Eu acho que o verso livre foi longe demais, há uma necessidade de se voltar a uma certa disciplina”. Entre a liberdade e o rigor, o poeta cava seu caminho de poeta.

Considerava que só escrever verso livre realmente até “O cão sem plumas”, poema de 1950. A partir deste livro, toda a sua poesia é metrificada. Recorre então a uma ideia do poeta americano Robert Lee Frost, que diz assim: “escrever verso livre é como jogar tênis sem rede”. Uma partida de tênis sem a rede é algo completamente impossível. Só a rede torna tudo possível. Só as regras, pensava Cabral, tornam a poesia possível. Em 1990, em mais uma entrevista, dessa vez a André Pestana publicada no livro “O que eles pensam” (Tagore Editora, 1990), consegue, talvez, sintetizar sua difícil posição: “Não é voltar a nenhum Parnasianismo, sonetismo, a nenhuma forma rígida exterior. Mas eu tenho a impressão de que cada pessoa devia encontrar a sua forma rígida para sua maneira de ser e segui-la”.

Em resumo: cada poeta deve encontrar sua forma interior. De novo: aqueles limites, aquelas formas, aqueles sentimentos que existem dentro de si de uma maneira única. Podem parecer estranhos, estúpidos, incoerentes, inoportunos, nada disso importa. Um poeta só se torna poeta quando se volta para dentro de si e ali, em sua própria escuridão, divisa as fronteiras de seu mundo.

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