Cacofonia mental

Por Hélio Schwartsman
FSP

SÃO PAULO – Seres humanos gostamos de literatura porque ela nos oferece narrativas que interpretam o mundo por nós. Uma historieta popular é a do drogado que rouba, mata e se prostitui para sustentar seu vício. Como fábula, é eficaz: elenca sintomas paroxísticos da dependência e já traz uma moral.

O problema é que essa imagem nem sempre é verdadeira. Ao contrário do que dizem os advogados da internação compulsória, dependentes conservam algum grau de controle sobre a continuidade do uso. Estudos mostram que, quando o preço da droga sobe, cresce a procura por programas de tratamento.

Considerando que o cérebro humano, com seus 90 bilhões de neurônios interligados em 100 trilhões de sinapses, é a estrutura mais complexa do Universo, o surpreendente seria se nossos comportamentos fossem unívocos e 100% previsíveis.

O que os trabalhos neurocientíficos sugerem é que a mente é o resultado de uma cacofonia de módulos e sistemas autônomos atuando em rede.

De especial interesse para a fisiologia do vício há o fato de que os circuitos do gostar e do querer são independentes. As primeiras experiências com drogas são prazerosas. Mas, à medida que a dependência se instala, surgem consequências negativas. Quando o sujeito está nas ruas, em geral, já atingiu o ponto em que não gosta tanto da droga, mas ainda a quer desesperadamente.

Isso significa que há sempre ambivalência por parte do dependente. Se ele for abordado da forma correta, poderá ser persuadido a aderir a um programa de recuperação. Não é necessário interná-lo “manu militari”. Aliás, fazê-lo é um contrassenso, quando se recorda que a atenção psiquiátrica é um dos piores gargalos do SUS. Não há vagas nem para quem busca agoniadamente por uma.

Histórias de viciados que matam para comprar droga funcionam melhor para assustar criancinhas do que para traçar políticas públicas.

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