Cadê a mãe dessa criança, que não viu isso?

Acredito que todo mundo já ouviu essa frase em algum momento da vida. A grande questão é: ou você era a pessoa que disparava a pergunta carregada de um tom acusatório, ou era a mãe da criança sendo julgada. Bom, escrevo do lugar da mãe. Sabe aquela história que dizem “se você não está ouvindo uma mãe ensandecida gritar com o filhe, é porque essa mãe é você”? Pois bem, cá estou eu.

Maternidade é compulsório nesse país. A gente não tem escolha. Nasceu, já empurram uma boneca no seu colo pra cuidar e logo depois da menarca surgem os questionamentos: “vai casar e ter filhos, quando?”. A maioria de nós mulheres-mães, não teve a chance de decidir de forma consciente sobre isso. Algumas, inclusive, buscaram a maternidade como fuga contra a solidão. Nos tornamos aquelas mulheres que tiveram que aprender “na marra” como conciliar a vida profissional com a maternidade, e quando tentamos incluir uma vida amorosa ou social nesse meio, os julgamentos são ainda mais severos.

A sociedade nunca nos deu escolha, muito menos apoio. Maternidade no escopo ocidental está diretamente ligada à questão do parimento. “Quem pariu Matheus, que balance”, ou ainda com a nova versão do provérbio: “quem pariu e bateu, que balance”, mas de qualquer forma quem continua “balançando” é a mulher.

É triste pensar que nos deslocamos tanto dos nossos valores civilizatórios africanos. Para os nossos antepassados em África, o ato da maternidade está mais ligado à maternagem, ou seja, à prática de gestar a vida de uma criança é responsabilidade de todes e não apenas de quem a colocou no mundo. É por isso, que no continente africano, quando uma criança não corresponde com a conduta prevista por determinada civilização, não se pergunta: “onde está a mãe desta criança, que não viu isso?”. Pergunta-se: “de qual comunidade é esta criança?”

Apenas uma figura não pode ser responsabilizada pelos erros de um iniciante, quando nossas ações são frutos de uma construção social. Matrigestão não está restrita à gênero ou útero individual. É uma práxis que abrange um útero mítico ancestral. Estamos falando de um processo de aquilombamento. De filosofia UBUNTU: eu sou porque você é.

Nós, africanes em diáspora, chegamos ao Brasil com o corpo, a palavra e nossos valores civilizatórios. Compartilhamos experiências semelhantes porque sofremos com o mesmo mal. E quando falamos de maternidade, abraçamos mulheres não negras também, porque é isso que fazemos, não jugamos. Nos acolhemos e cuidamos umas das outras.

É importante compreender que, apesar de admirarmos nossas mães e termos boas referências das matriarcas da família, somos pessoas diferentes em contextos diferentes e vamos sofrer com os descompassos da maternidade; não podemos, nem devemos nos condenar por isso. Então, se você é a mãe que está surtando, sobretudo, durante a pandemia, saiba que não está só. E se você é a pessoa que está de fora criticando, procure pensar qual é a sua parcela de responsabilidade nesse processo. Por menos flores numa data específica do ano e mais: “vá dormir, eu olho ela”, o ano inteiro.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Edielia Arruda 3 de maio de 2021 16:50

    Muito bom o texto. A maternidade é de certa forma imposta, mas podemos olhar com novos olhos, afinal você pode escolher não ter filhos. Ou tê-los, e sentir que ele é continuidade de você. Se olhar para o outro com o mesmo sentimento de gratidão, prazer e compromisso que temos com nossos filhos sabendo que independente de ser seu ou do outro, ele na verdade é nosso, pois é um ser humano pertencente a grande família que habita o planeta azul.

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