Cadê o primeiro de maio que já esteve aqui ?

O primeiro de maio já foi comemoração reivindicatória de trabalhadores. Começou a virar data cívica oficial no primeiro pós-guerra (e pós-Revolução Russa), quando os países capitalistas trataram de criar alguma legislação trabalhista antes que a revolução socialista viesse. No Brasil, Getúlio Vargas investiu pesado nessa criação desde 1930 e o primeiro de maio, que fora comemorado antes meio clandestinamente por sindicatos livres, virou parada cívica e tudo mais, com patrocínio governamental e participação bovina dos sindicatos oficiais. Tenho lembrança pessoal do tempo da ditadura: a televisão exibia a premiação do operário padrão, etc; depois, quando a ditadura começou a ficar mal das pernas, com sindicatos desobedecendo às ordens governamentais e patronais, houve grandes comemorações públicas e fora da lei de Primeiro de Maio, que se tornaram jornadas de combate ao regime.
A ditadura acabou, os sindicatos voltaram ao pleno controle do Ministério do Trabalho, bem pagos (os trabalhadores é quem são os mal pagos). Há muitos anos, as comemorações de primeiro de maio, entre nós, são mera cretinização, com sorteio de automóveis, estilo programa Sílvio Santos, mais espetáculos de qualidade duvidosa. Discutir salários melhores, que possibilitem a todos a compra de carros e ingressos para espetáculos, nem pensar!
Neste 2014, vi fotografia de um candidato à presidência, num dos palanques, teatralmente dialogando com um ator, vestido de Dilma Roussef, mescla de Zorra Total com Pânico na TV (mas era um ato político de supostos trabalhadores!). O primeiro de maio, quem diria, acabou em comédia televisiva ao vivo – ou morto. Claro que todo candidato de oposição deve falar mal, até muito mal, do governante da hora. Agora, fingir que fala com ele usando ator é o que há. O candidato se metamorfoseou em comediante sem talento. O ator, coitado, cumpriu seu papel de ator.
Saudades daqueles primeiros de maio com esperança.
Voltarão?

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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