Cães

O cão Roxy em Adeus à linguagem, de Jean-Luc Godard / Divulgação

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Um cão ronda “Adeus à Linguagem”, filme de Jean-Luc Godard em cartaz no Rio e em São Paulo, enquanto uma voz em off cita Rilke: “Só concebemos o que é exterior pelo olhar do animal”. Roxy, o cão, olha para a câmera. “Não é o animal que é cego, mas o homem, cego pela consciência, que é incapaz de olhar o mundo.”

Há outras máximas sobre a alteridade, enquanto Roxy vaga pela casa e pela natureza: “Ninguém poderia pensar livremente se seus olhos não pudessem escapar a outros olhos que os seguissem”; ou “Só os seres livres podem ser estranhos uns aos outros. Eles têm uma liberdade comum, que é precisamente o que os separa”; ou “O filósofo é aquele que se deixa intrigar pela figura do outro”.

Passei o fim de semana na praia, com dois cachorros perdigueiros. Eles já tinham ganhado o meu amor quando, no final da tarde de domingo, ao voltar da praia, o dono da casa me pediu que abrisse a porta que dá acesso à sala e ao terraço e os deixasse entrar. Antes, é preciso dizer que essa é uma casa de vidro, com portas e paredes de vidro por todos os lados, e que está situada no meio da mata. Os cachorros entraram como duas balas, estavam possuídos, como se tivessem um objetivo, como se procurassem alguma coisa. Correram para o terraço, loucos. O que eu não sabia, ao chegar e abrir a porta para que entrassem, é que acabavam de ouvir um barulho. Pior: acabavam de reconhecer um barulho.

Comentei inocentemente com o dono da casa que parecia que os dois estavam caçando. E, de repente, ouvimos os gritos desesperados de um passarinho, na boca de um dos perdigueiros, se debatendo contra a morte, com apenas uma das asas esticada para fora. Tentei abrir a boca do cão e tirar de lá de dentro o bicho que já não gritava nem se mexia. Em vão. Desci pro meu quarto com a culpa de ter matado o pássaro – ou pelo menos de ter criado as condições de possibilidade para que isso acontecesse.

De nada adiantou o dono dos cães e da casa repetir que era a natureza, que não se pode fazer nada contra o instinto animal, que volta e meia os cachorros abocanhavam um pássaro que se espatifava contra as paredes de vidro e que caía estatelado no chão, ainda com vida. Voltei para São Paulo na maior tristeza, com a cena na cabeça, arrependido de ter aberto a porta, pensando em estratégias (como se eu fosse a presa) que podiam ter salvado o pássaro, como bicar a língua do cão até fazê-lo abrir a boca.

Por coincidência, tinha relido A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector, na semana anterior. Os organizadores de um encontro literário me pediram para ler um texto que tivesse marcado a minha infância e eu escolhi essa história de culpa. Parece que não evoluí muito de lá pra cá. Reli o livro às lágrimas. Clarice escreveu A Mulher que Matou os Peixes pra explicar aos filhos em férias que não tinha sido de propósito que ela esquecera de dar comida aos peixinhos vermelhos. E, pra provar que amava os animais, resolveu fazer uma lista dos bichos que tivera.

Entre eles, estava o cão Dilermando, que ela foi forçada a abandonar numa de suas mudanças, quando o marido diplomata foi transferido da Itália para a Suíça. Clarice nunca se refez da culpa. E a culpa em relação a esse episódio ganhou mais de uma tentativa de expiação pela literatura. Pra mim, a mais bonita é o conto “O Crime do Professor de Matemática”, incluído em Laços de Família.

Em “Adeus à Linguagem”, Godard cita Darwin que, citando Buffon, dizia: “O cão é o único animal que te ama mais do que a si mesmo”. No conto de Clarice, um homem lamenta o cão que ele teve de abandonar durante uma mudança. Está mortificado de culpa. Não se perdoa e não esquece. Sabe, entretanto, que o amor incondicional do animal esbarra em uma barreira irredutível, “no ponto de realidade resistente das duas naturezas”: “De ti mesmo, exigias que fosses um cão. De mim, exigias que eu fosse um homem. (…) Embora meu, nunca me cedeste nem um pouco do teu passado e da tua natureza (…). Agora, estou bem certo de que não fui eu quem teve um cão. Foste tu que tiveste uma pessoa.”

Você pode amar os bichos, projetando neles um amor incondicional ou uma falta, graças à opacidade do olhar do animal, graças a essa irredutibilidade sem linguagem, ou pode (o que é bem mais difícil) amá-los como se ama a natureza com tudo o que ela tem de amor e de horror simultâneos. “Enquanto eu te fazia à minha imagem, tu me fazias à tua”, pensa o professor de matemática em relação ao cão que ele abandonou.

Um amigo me disse outro dia que eu não podia deixar de ver o documentário “E Agora? Lembra-me”, do português Joaquim Pinto. O cineasta e seu companheiro, Nuno Leonel, vivem com cães que envelhecem, adoecem e se aproximam da morte. Cultivam um pedaço de terra que compraram no interior de Portugal, combatem incêndios. Amam a natureza, mas a natureza no que ela tem de cíclica, ao mesmo tempo morte e luta contra a morte, e é isso o que faz de “E Agora? Lembra-me” um filme sensacional.

“E Agora? Lembra-me” é o diário filmado de um ano ruim, no qual o diretor, lutando contra a aids e a hepatite C, decide se submeter a um tratamento experimental. Como é ele quem está quase sempre diante da câmera, o filme não deixa de ser uma espécie de selfie. Mas, ao contrário das selfies, o que é celebrado ali não é o desespero camuflado da aparência tentando vencer a morte; é, antes, a própria natureza, na sua realidade física, representada pela ambiguidade de cães que lambem os donos e matam coelhos e dos vírus, que são ao mesmo tempo vida e morte, que matam o homem, mas sem os quais é possível que o homem nem existisse.

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