Café literário discute música e livros

Literatura e música têm mais coisas em comum do que normalmente se supõe, por isso, quando reunidas, podem apresentar resultados surpreendentes, como ocorreu na última quinta-feira no “Café Literário” da Livraria Nobel dedicado a dois escritores do catálogo da editora Sarau das Letras, sob a mediação dos escritores Thiago Gonzaga e Aluízio Azevedo Filho.

As afinidades se evidenciam quando dois autores com livros recém-lançados em uma dessas áreas são convidados a fazer uma explanação sobre sua obra para um público heterogêneo, informado e exigente, composto de estudantes de letras, musicistas e escritores. Dentre outros, os escritores Marcos Medeiros, Damião Gomes, Cleudivan Jânio, o filósofo Rainer Patriota e a revisora Andreia Braz.

Vivemos essa experiência, na noite da última quinta-feira, ao lado do escritor Damião Nobre, pesquisador da nossa música, assunto de que trata seu livro recém-lançado “Radiola: conversa de música” (Sarau das Letras, 2014), enquanto caberia a mim a tarefa de falar um pouco sobre meu livro “Um Equívoco de Gênero e outros contos” (Sarau das Letras, 2014). Manoel Onofre Jr., cuja presença estava prevista na programação inicial do evento, não pôde comparecer, o que certamente frustrou alguns de seus leitores que se fizeram presentes ali.

Coube ao escritor Thiago Gonzaga conduzir o encontro a fim de tornar o que deveria se iniciar com duas palestras num amplo debate alternando entre um assunto e outro em pauta, mas sem estabelecer normas rígidas de minutos contados e que tais, como se vê habitualmente em debates de ordem política, por exemplo.

Dessa forma, Damião Gomes pôde tratar do conteúdo do seu livro de forma tranquila, assinalando curiosidades e peculiaridades pertinentes à nossa música popular que tem na cantora Roberta Sá, segundo sua avaliação, seu momento mais feliz. Os nomes de Elino Julião, Carlos Zens, Ademilde Fonseca (FOTO), o Trio Irakitan, Carlos Alexandre, entre outros, cruzaram as veredas de sua fala como destaques num cenário ainda lacunar, mas promissor.

Quanto a nós, nos cingimos aos limites de nosso “Equívoco de Gênero…”, mas nos reportando aos começos de nossa história literária, o que nos fez remontar a meados dos 1970 e aos acasos que sucederam para que viéssemos a nos tornar escritores.

A partir daí, Thiago Gonzaga encorajou a plateia aos questionamentos, o que suscitou explicações inicialmente por parte de Damião Nobre, levando-o a lembrar fatos curiosos e chamativos do mundo da música, demorando-se na figura de Elino Julião, com quem manteve laços de amizade e de admiração.

Em sua fala, Damião Nobre também tratou da música como disciplina escolar, citando exemplos de outras culturas, como o Canadá, onde os alunos entram em contato com os instrumentos musicais ainda na infância, o que lhes abre um rico universo de sons e algumas vantagens sobre países que não atentam para esse exemplo.

De nossa parte, fomos questionados sobre alguns assuntos recorrentes em conversas com escritores. A diferença entre crônica e conto, por exemplo, sobre a estrutura do conto, sobre o estágio atual da nossa literatura, entre outros temas congêneres. Sem teorizações nem minudências acadêmicas, nossa fala se prendeu aos ditames da nossa própria experiência com a leitura e a escrita literárias, o que nos franqueou a atenção e a empatia dos presentes, curiosos e encorajadores.

Nos arriscamos mesmo a propor uma tipologia tosca e elementar sobre o conto, mas que contou com a simpatia de um ou outro presente, o que nos deixou à vontade para questionar também a um ou a outro, produzindo o resultado preconizado por Thiago Gonzaga: um bate-papo descomprometido sobre a experiência literária, o seu significado para cada um, seus apelos em tempos extremos como os de hoje. Coisas, enfim, comuns a um sarau literário.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo