Café novo

No meu quintal há um assassino; a noite é clara, e ele me diz coisas terríveis. Entre outras coisas, o assassino é um fenomenólogo escavador, espécie epidêmica nos quintais da década de 80. Devo criá-lo no jardim, ou devo bem antes asfixiá-lo, sepultado no barro úmido? Em todo caso, ele avisa que o tempo está claro na Antuérpia, cuja população é feita mormente de imperadores furtivos, habituados a pichações vespertinas e invasão de casas, ultimamente expropriadas para comportar corredores. Um belo cisne branco cruza o azul profundo, aterrissando na copa escura do meu ficus. Pancadas de chuva pela manhã e sol à tarde, murmura o vizinho, sua cabeça despontando numa janela. A voz de radionovela me fala do café novo com amêndoas no armário, para ferver mais tarde; mordendo as costas da mão, pergunto ao assassino por que veio. Tira das calças o membro branco, texturizado de veias grossas, pulsantes, balançando-o, diz-me que aquela não é minha casa; que veio para extinguir o que, um dia, me tornara humano. Você é o invasor; você é o estranho, diz o assassino, feições ocultas na penumbra do jardim, girando uma jeba flácida, ponteiro de um calvinismo fátuo. O jardim de olhos ternos, de procedimental humanidade, meu lar, está cheio de estranhos. Estático e silencioso, o belo cisne branco engasga; sou acossado de hilaridade vendo seu bico aberto tremer.

É escritor, desenhista, músico e pesquisador. Publicou o livro de contos "Corpúsculo num plano. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Silvio Reis 3 de Setembro de 2016 20:11

    Já li várias vezes.

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