Caindo em “Vertigo”

Ao entrar em “Vertigo”, fui com calma. Um novo frio na barriga a cada página. Em cada verso, abismos que exigem um convite repetitivo: à morte. A sensação de oscilação e instabilidade causada pela falta equilíbrio aparecem no primeiro poema quando Adélia Danielli prepara-nos: “a matéria/da minha/cura/está nas/ palavras/ que não/falo/ mas que escrevo […]”. A poeta seridoense apresenta-nos em torno de 80 poemas que pedem para ser lidos com calma, pois Danielli encontra-se “[…] nauseada/de girar.”

Onde comprar : no Instagram @adeliadanielli
Quanto custa: R$40 com frete incluso para todo Brasil
Forma de pagamento: Pix ou transferência bancária para o Banco do Brasil.

Escrever sobre o segundo livro de Adélia, poeta do meu coração, faz-me tremer as carnes, porque sempre lembro que — chorando — sentia-me conectado com a escritora. Suas palavras já me habitavam, sobretudo, porque “Vertigo” é um livro ousado. Exige-nos ousadia para cair de cabeça no abismo trazido pelos poemas que lemos, entendendo que “essa mania de/ me autossabotar/não fazer ignorar/cria uma face cínica/de proteção na qual/ enterro corpos e/ os escrevo em solidão”. Você não está mais só, Adélia, pois agora minhas lágrimas dançam com as suas.

Nesse livro, Adélia Danielli revela aquilo que no cristianismo chamamos de “noite escura da alma”, ou seja, mostra-nos a dor causada pela falta. Sim, “Vertigo” é um livro de ausências e lutos. Lutos pelos sonhos e alegrias que partem de nós diariamente. A poeta mostra as lacunas da vida pela ausência das vírgulas, conjunções e através do verso que quase sempre “quebra” onde não esperamos. Aqui, há uma busca por um “outro”, colocando-o quase que em uma posição ontológica. O anseio por essa “outridade” — aspecto denominado por Octávio Paz — é a revelação poética que provoca uma escrita “sobre o cheiro de café” e faz “[…] do engasgo poesia.”.

Creio que se Clarice escrevesse poemas seria algo mais ou menos assim: perigoso. Adélia evoca as epifanias de Lispector como uma tentativa de fuga, porém descobre que “o belo/pode ser/ordinário”.

“Vertigo” exige um leitor presente de corpo e alma.

N.R: Vertigo foi financiado pela Lei Aldir Blanc e tem o patrocínio da Fundação José Augusto, Governo do Estado, Secretária Especial de Cultura do Ministério do Turismo e Governo Federal.

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