Caixa de sapatos

Por Adriano de Sousa
NA TRIBUNA DO NORTE

Abro o armário de inutensílios para tomar da pena de articulista e cumprir o deadline, a verdadeira musa inspiradora de quem transpira nas minas de sal do texto. Constato que o estojo não está onde deveria: na prateleira da memória, no centro do meu campo de visão. Por algum clichê literário que me escapa, subverteu-se a minha mania por ordem. Será necessário tatear o tempo, espanar suas divisões. Não gosto da lida com o quem eu era. Mas, preciso cumprir o prazo.

Esse time de futebol de botão, com jogadores de baquelite preta e formato de cuscuz, é um Vasco medíocre mas campeão brasileiro em 1974. Recito a escalação de cor, sem mirar as efígies autocolantes: Andrada; Fidélis, Miguel, Moisés e Alfinete; Alcir, Zanata e Ademir; Jorginho Carvoeiro, Roberto Dinamite e Luís Carlos.

São os últimos botões usados no campo traçado a caneta porosa no verso do quadro-negro de compensado que o pai, morto dois anos antes, mantinha em casa para aulas de reforço que ele mesmo ministrava. Era o Estrelão possível para mim, Alvamar, Filhinho, Chico, Van, Dedé, Xaxaga, Chieta, Stó, Henrique e Hominho, que reproduzíamos ali as jornadas narradas na rádio Globo por Waldir Amaral e Jorge Cury.

Na mesma caixa de papelão pardo, outra relíquia ludopédica: a camisa 5 do quadro infantil do Vitória Esporte Clube Alexandriense. O Veca jogava sempre às 13h, nas preliminares dos embates do quadro juvenil com times de cidades potiguares e paraibanas da vizinhança. Não sei por que guardei a camisa de malha barata, amarela com listras verdes nas mangas. A memória associada a ela é ruim.

Num jogo contra a seleção de Tenente Ananias, o nosso centroavante – Bibia, de quem invejávamos a técnica refinada e a cabeleira desgrenhada – foi derrubado na área. A regra no Veca era clara: quem bate o pênalti é o capitão, escolhido em esquema de rodízio para, segundo o dono do time, inculcar em todos o senso de liderança e o de responsabilidade com o grupo.

Naquele domingo o capitão era eu, médio-volante atrevido, que chegava a treinar entre os jogadores do time juvenil, e porradeiro (no pasarán) com algum talento para o desarme e o passe. Na cobrança, desloquei o goleiro para o canto esquerdo dele e chutei (benditos Ki-Chutes, que chuteiras eram caras e raras) no direito. A bola bateu na trave e voltou para mim. Emendei de primeira e marquei.

Já saía para o abraço, quando o juiz (esqueci o nome do filho da puta) anulou o gol, seguindo a regra conhecida por todos: como a trave é neutra, eu não poderia ter chutado duas vezes sem que outro jogador tocasse na bola. Perdi o pênalti e o lugar no time. Mas não devolvi a camisa, apesar das cobranças.

A caixa seguinte tem uma inscrição a lápis de grafite, quase ilegível: sapatos de poeta. Não me lembrava deles. Nem que era possível escrever poemas com os pés. Ou talvez os sapatos fossem apenas o meio de chegar ao campo onde as palavras se encantam. Eles são de lona fina e têm solado de borracha flexível, adaptáveis a qualquer forma. A medida é a minha, mas não consigo calçá-los.

Penso que o uso imoderado de tênis deformou-me os pés, que já não cabem na delicadeza rústica de uns sapatos de pano. A frustração encerra a busca. Desisto da pena, fecho o armário, abro a tela do computador e escrevo este texto em que tudo é mentira. Menos os sapatos.

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