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Caju-Rei

Foi em 1888. O lugar era – e ainda é – lindo e ensolarado, banhado pelos verdes mares, os mares verdes do Brasil: Pirangi.

Começou com uma castanha de caju que Seu Luís pescador decidiu plantar perto do mar, em vez de juntar com outras castanhas e assar junto com a esposa para vender na feira.

Ainda bem que ele plantou.

Nem Seu Luís, nem sua esposa, nem ninguém sabia que aquela castanha era rainha. E toda rainha tem filho príncipe. E todo príncipe que é filho único um dia vira rei.

Foi assim que o príncipe filho da castanha-rainha virou rei: dos seus cinco galhos, um se tornou seu escudeiro. Cresceu e se ergueu, sempre a postos para ajudar Sua Alteza em combate.

Os outros quatro foram ordenados cavaleiros. Porém, quando se ajoelharam diante da rainha mãe, mal ela tocou o ombro deles com a espada cerimonial, criaram raízes. Nunca mais puderam se erguer da terra. Com raízes, se tornaram troncos: quatro novos cajueiros.

Cresceram-lhes galhos. Adolescentes fogosos, logo esses galhos mostraram seu valor nos treinos de guerra. Conseguiram o que queriam: também se tornaram cavaleiros. Joelho no chão, espada tocando o ombro – raízes! Novos troncos, mais cajueiros – outros cavaleiros!

Os galhos deles também queriam o título…

Joelho na terra.

Espada no ombro.

Raízes!

Troncos e galhos…

E assim – joelho, espada, raízes, tronco e galhos – o príncipe ficou cercado por cada vez mais cavaleiros.

E o pequeno exército do príncipe foi ficando cada vez maior: exército de rei, sempre todos ao redor dele, a postos, fiéis. Assim a castanha-rainha-mãe, orgulhosa, coroou rei o filho: uma imensa coroa de cajus de ouro com vermelhos lampejos de rubi, suculentos, cheirosos, doces. E ela ficou sendo a conselheira-mor, escondidinha na terra.

De lá para cá, cento e vinte e nove anos de reinado.

Tanta sombra, e tanto caju, e tanta beleza, que o pai adotivo do príncipe, Seu Luís pescador, morreu – ainda jovem, só noventa e três anos de mar – encostado no tronco, como todo dia ficava horas e horas.

E essa foi a história da castanha-rainha e do cajueiro-príncipe que virou cajueiro-rei: o Maior Cajueiro do Mundo, gigante pela própria natureza.

Ah! Mas falta contar um detalhe desta doce e cheirosa narrativa: a festa de coroação, que começou com seu Luís pescador e a esposa – convidados de honra – e continuou juntando pessoas do mundo inteiro. Dura até hoje, num salão de chão de areia e teto verde iluminado pelos amarelíssimos frutos, onde milhões e milhões de súditos comem cajus até o suco doce escorrer pelos cantos da boca.

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Lidianne Pacheco

Comentários

1 comment

  1. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 27 março, 2018 at 21:27

    Nossa! Que história maravilhosa! Poética, forte! Nosso cajueiro-rei, orgulho maior dos potiguares!

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