Câmara Cascudo e Charles Frederick Hartt

Por Vicente Serejo
JORNAL DE HOJE

Fiquei sem saber a que atribuir a omissão do nome de Câmara Cascudo como primeiro tradutor e estudioso, no Brasil, do ensaio ‘Os Mitos Amazônicos da Tartaruga’, o célebre ‘Amazonian Tortoise Myths’, do geólogo canadense Charles Frederick Hartt, publicado originalmente em inglês, em 1875. Foi impresso na Typographia Acadêmica, Rio, sob o patrocínio do publisher Willian Scully, com mais duas edições nacionais depois da edição original feita pelo Arquivo Público Estadual do Recife, 1952.

Cascudo não é lembrado nem como referência para atender a um possível interesse dos leitores no excelente texto de Iuri A. Lapa e Silva, no número deste janeiro que abre o ano editorial de 2015 da revista História, da Fundação Biblioteca Nacional, Rio. E a omissão espanta não pela raridade daquela primeira edição fechada nos limites da vida intelectual pernambucana ou no máximo nordestina. Mas é que o texto mereceu duas edições nacionais, ambas na editora Perspectiva, São Paulo, em 1977 e 1988.

Muito cedo o ensaio de Hartt atiçou a curiosidade deste leitor da obra de Câmara Cascudo na sua limitação intelectual de colecionador, sem ser um cascudófilo ou cascudólogo. Pressentiu, como garimpeiro de papéis velhos, que seria possível encontrar o livrinho amarelado – feição gráfica singela com título em vermelho, e um jabuti a adornar sua capa – nas livrarias antiquárias do Rio ou São Paulo. E foi: um dia lá estava ele a dormir, anônimo, na prateleira empoeirada de um velho sebo paulistano.

Sua presença, não seria tão singular na coleção que esta casa abriga, se a tradução do ensaio de Hartt não tivesse uma ancestralidade nobre: a cópia da carta de Câmara Cascudo ao então advogado e depois diplomata e seu amigo, Fernando Abbott Galvão, datada de 27 de julho de 1977 e remetida da Rua da Conceição, 565. Cascudo pergunta: ‘Então? Como vamos de cópia do “Amazonian Tortoise Myths”, do grande Charles Frederick Hartt? Começaram?”, indaga, tentando animar seu colaborador.

E continua, bem humorado: ‘Não? Pelo sim e pelo não, ouça: Nós, o possessivo é a Sociedade Brasileira de Folk Lore, sede em nossa casa, pagará cem cruzeiros pela cópia, fiel, completa, exata e limpa e datilografada. São 40 páginas. Nonadas’. E faz outro pedido de cópia das páginas 137 a 153 do ‘Contribuições para a Etnologia do Vale do Amazonas’, também de Hartt, publicado no Tomo VI dos Archivos do Museu Nacional. Finalmente, propõe remunerar a quem Abbott contratar para ajudá-lo.

A tradução de Cascudo sai em 1952 e mergulha numa longa noite de esquecimento. É o próprio Cascudo que acorda do sono a importância do ensaio ao propor à editora Perspectiva sua nova edição. Mantém a apresentação original de Jordão Emerenciano, então diretor do Arquivo Público do Recife, da primeira edição, a dedicatória ‘Ao meu estimado amigo Major Oliver Cromwell James’ e escreve um prefácio em fevereiro de 1977, erguido no estilo cascudiano e se qualificando como ‘o anotador’.

A Perspectiva, das mais exigentes editoras acadêmicas, a que publicou, de Cascudo, ‘Tradição, Ciência do Povo’, 1971 e ‘Mouros, Franceses e Judeus’, 1984, deu divulgação nacional por duas vezes ao ensaio de Hartt sobre os mitos do Jabuti. Só em 2001, sairia ‘Hartt: Expedições pelo Brasil’, na forma de álbum, encadernado, fartamente ilustrado, edição de luxo e reprodução fac-similar dos belos desenhos de Hartt, e patrocinada pela Metalivros. Com tiragem limitada, destinada a colecionadores.

Um ano depois, em 2002, a editora da Universidade Federal de Minas Gerais daria aos olhos brasileiros a brochura ‘Charles Frederik Hartt, um naturalista no Império de Pedro II’, a tese que deu a Marcus Vinícius de Freitas o título de PhD, o mesmo que organizara a edição de luxo. Freitas revela a grandeza que Cascudo viu bem muito antes, ainda em 1944, quando desejava ter o texto raro em suas mãos para traduzi-lo. E por isso é citado por Freire que considera sua introdução ‘um aparato erudito’.

Há mais detalhes nestes arquivos cascudianos reunidos aqui há tantos anos – anotações, recortes de jornais, páginas de revistas. E há um exemplar da ‘Geologia e Geografia do Brasil1′, do próprio Hartt, Coleção Brasiliana, volume 200, 1941. Terá sido, salvo melhor juízo, a primeira luz a alumiar a genial perspicácia cascudiana, posto que o ensaio sobre os mitos da tartaruga está na vasta bibliografia de um livro prefaciado pelo grande Roquete Pinto? São detalhes. Mas detalhes que fariam esta conversa mais comprida. Fica o registro, Senhor Redator. Sem cobrar a desinformação ou a omissão intencional da notícia sobre Charles Frederik Hartt na revista História. Foi só o sopro de uma nova luz para outra vez fazer brilhar uma estrela que a noite dos tempos apagou no céu escuro da província.

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