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Câmara Cascudo: curiosidades, equívocos e polêmicas

Cascudo, a ABL e outras curiosidades

Grande escritor, Câmara Cascudo poderia ter sido um dos imortais da Academia Brasileira de Letras. Não foi porque não quis.

Muitos colegas o incentivaram a candidatar-se a uma cadeira na Casa de Machado. Sempre se esquivava.

Certa vez, me disse:

– Não pedi a mão de minha mulher. Quem pediu foi o meu pai. Como então pedir votos para eleger-me acadêmico? – Não tenho coragem.

Disse e deu uma risada gostosa.

Confessava-se “noivo” da ABL. Mas sempre adiou o “casamento”.

Foi um dos fundadores de, pelo menos, duas entidades de grande importância no mundo cultural: a Sociedade Brasileira de Folclore e a Academia Norte-rio-grandense de Letras. Era sócio de inúmeras instituições culturais. Nas sessões do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, que tanto prestigiou, inclusive, como orador, não participava da mesa dos trabalhos, preferia ficar na primeira fila de cadeiras da plateia. E irrequieto, não raro, quebrava a sisudez das solenidades com brincadeiras de menino travesso.

Cascudo, a rede de dormir e um estudante contente

Na minha juventude andei calabreando telas com a pretensão de ser pintor. Realizei duas exposições, uma na Galeria L` Atelier de Dorian Gray, situada na Rua Princesa Isabel, quase esquina com a Ulisses Caldas, e outra no Instituto Histórico e Geográfico. Para esta ousei convidar Câmara Cascudo, e este compareceu, quase matando de alegria o jovem estudante aprendiz de pintor. Cascudo olhou com interesse todos os quadros expostos, detendo-se diante de um deles, que representava uma rede armada debaixo de uma árvore frondosa.

-Gostei mais desse – ele me disse.

E acrescentou :

-Escrevi um livro sobre a importância da rede de dormir na cultura popular.

E eu, contente que só:

-Esse quadro é seu, mestre.

Hoje, quando vou ao Instituto Ludovicus, na casa onde Cascudo viveu grande parte de sua vida, fico meio sem jeito: o quadrinho está lá, numa das paredes da sala.

Cascudo, Raimundo Nonato e as biografias

Poucos sabem que Câmara Cascudo e Raimundo Nonato da Silva foram parceiros em um livro que não chegou a ser publicado.

Revela o escritor Umberto Peregrino na coluna “Contos e Pontos” da revista Careta (Rio de Janeiro, 1951):

“Câmara Cascudo e Raimundo Nonato (este também escritor potiguar fecundo e conceituado) estão preparando juntos um “Dicionário Biográfico Potiguar”.

“Convém esclarecer, porém, que esse Dicionário terá características revolucionárias pois que, além dos homens ilustres (políticos, intelectuais, artistas, militares, mestres e sacerdotes) incluirá também figuras do povo que tenham tido participação sensível na vida do Estado.” (Texto localizado na hemeroteca da Biblioteca Nacional, via internet, pelo pesquisador Thiago Gonzaga).

Câmara Cascudo e Raimundo Nonato escreveram e publicaram, separadamente, várias biografias da maior relevância. De Cascudo, no plano nacional: “López do Paraguai”  (Natal : Tipografia de “A República”, 1927) ; “Conde d´Eu”, (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933); “O Marquez de Olinda e seu  Tempo” (São Paulo: Companhia  Editora Nacional, 1938).

No plano regional: “Vida e Obra de Pedro Velho” (Natal: Departamento de Imprensa- RN, 1956); “Vida Breve de Auta de Souza” (Recife: Imprensa Oficial- PE, 1961. Edição sob patrocínio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte); “Nosso Amigo Castriciano” (Recife: Imprensa Universitária- Universidade do Recife, 1965), dentre outras obras.

Raimundo Nonato reuniu em livros dezenas e dezenas de perfis, quase todos sobre norte-rio-grandenses – vultos ilustres, tipos populares, etc. Destacam-se os seguintes: “Bacharéis de Olinda e Recife-Norte-rio-grandenses formados de 1832 a 1932” (1960); “Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro Romântico” (1970) e “Jornalista Martins de Vasconcelos, um Homem de Muitas Lutas”, em parceria com Walter Wanderley (1974), todos editados pela Pongetti, Rio de Janeiro.

Cascudo, o sertão e algumas polêmicas

Valeu a pena reler o livro “Viajando o Sertão” de Câmara Cascudo, lançado em 1934 (Natal: Imprensa Oficial- RN; 2a edição: Natal: Fundação José Augusto, 1975). Embora seja obra menor na vasta bibliografia do etnógrafo e folclorista, desperta bastante interesse por preludiar, com linguagem informal, muitos temas depois abordados em profundidade pelo autor.

Até o capítulo lV, Cascudo vai narrando episódios e incidentes da viagem que fez rumo ao sertão potiguar na caravana do interventor Mário Câmara. Daí em diante muda o método e passa a focalizar, em pequenos estudos, aspectos do sertão, não mais preocupado com a descrição do roteiro de viagem. Os aspectos: presença dos negros, igrejas e arte religiosa, a cozinha tradicional, a intelectualidade, os fundamentos da família sertaneja, o cangaço de Lampião, o classicismo no falar, a música, a importância da carnaúba, etc.

Nestas notas vai despontando o futuro mestre de Etnografia. Ao lamentar a decadência da cantoria, diz: “O cancioneiro satírico, o cancioneiro heróico, o cancioneiro lírico do sertão ainda esperam seu codificador; possuímos os estudos de Gustavo Barroso, o Mestre João Ribeiro, Lindolfo Gomes, Basílio de Magalhães, Alberto de Faria, mais uns vinte ilustres. Gustavo delimitou os ciclos, mas sua vida lançou-o para outras atividades.

O Sertão exige uma existência inteira voltada ao seu amor, ao cuidadoso perpassar dos seus anais escritos nos versos alados das modinhas, nos martelos sonantes e nas carretilhas fulminantes”.

Interessante é que seria ele, Cascudo, mais tarde, quem preencheria essa lacuna com a sua obra de pesquisador, especialmente em livros como “Vaqueiros e Cantadores”.

Pode-se discordar de alguns pontos de vista expressos neste “Viajando o Sertão”, por exemplo, o de quando diz que “o cangaço não é um elemento do sertão”, e o define como “esses tipos de inadaptação, somas de todos fatores, vértices para onde convergem as grandezas negativas das taras, tendências, ineducações e impulsos”. Talvez faltasse perspectiva ao autor para ver no fenômeno do cangaço a verdade reconhecida, depois, por inúmeros estudiosos: o supuramento de tumores causados no corpo social do sertão pela estrutura nefasta do coronelismo & diversos fatores.

Outro ponto polêmico do livro divisa-se na afirmativa de que a energia na conquista e colonização do sertão deve-se ao “sangue valoroso” dos primitivos patriarcas sertanejos, “gente fisicamente forte e etnicamente superior”.

Ainda bem que há muitas opiniões aceitáveis e mesmo simpáticas, como, entre outras, aquelas constantes dos capítulos sobre culinária, arte religiosa, resquícios do classicismo na linguagem coloquial, cantadores, etc.

No capítulo final – vale dizer – retorna a narrativa da viagem.

Cascudo e alguns equívocos de Durval Muniz

Li na revista “Preá” (número antigo), longa entrevista com o Prof. Durval Muniz de Albuquerque Jr. sob o título de “A Reinvenção de Cascudo e Outras Invenções”. Revelando ampla cultura nos domínios das ciências humanas e sociais, e mesmo da literatura, Prof. Durval (também escritor) aborda vários assuntos – o Nordeste, a seca, o Regionalismo, Gilberto Freyre, etc. – porém se estende sobre Câmara Cascudo, cuja vida e obra está estudando com vistas a uma “biografia intelectual”.

Bastante crítico, levanta questões polêmicas a respeito do nosso escritor-mor. Embora argumente quase sempre com lucidez, peca, lamentavelmente, quando referindo-se ao Cascudo historiador, afirma, textualmente:

“E qual é o holandês do Rio Grande do Norte construído por Cascudo?

É um que não deixou nada, que só deixou um rastro de sangue e destruição, sem uma marca sequer de cultura. Você não encontra uma marca do holandês no folclore, você não encontra uma marca do holandês na comida. O holandês aqui foi só (o massacre de) Uruaçu, foi o Jacó Rabi, que se junta com um antissemitismo presente aí claramente e que vai explicar inclusive a adesão de Cascudo ao integralismo entre outras coisas”.

Que despropósito!

Cascudo em nenhum momento revelou antissemitismo ao tratar da figura de Jacó Rabi, um “judeu-alemão” a serviço dos holandeses, que cometeu muitas atrocidades na Capitania do Rio Grande. Cascudo nunca foi antissemita . E sua adesão ao integralismo, nos anos 30, nada tem a ver com antissemitismo.

Vale ressaltar que Cascudo publicou dois livros – “Mouros, Franceses e Judeus” (1967) e “Mouros e Judeus” (1978) – nos quais estuda a presença de elementos destes povos na cultura popular brasileira. Obras interessantíssimas, diga-se de passagem. Em ambas consta o ensaio “Motivos Israelitas.”

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