Caminhos de dentro

Sibila da Líbia, arte de Michelangelo na Capela Sistina, Vaticano

Percorrer uma pessoa não é percorrer uma pessoa. É sempre somente uma tentativa. Um poema chamado “Desejo”, escrito em dia de treva, eu o encontrei entrecortado por outras minúcias. “Uma portinhola obriga-me/a amoldar o ato/de percorrer-te./Tua solidão ofega, ensombra./Mas te passo te adentro/agarro escuros em ti/espalho a unção de mim/afogueada e tonta./És antro, não refúgio, constato./Mas acato. Aceito perder-me.”

Só assim se tenta percorrer alguém: aceitando perder-se nas muitas formas de percorrer alguém. Caminho nunca findo, toda pessoa é labirinto, é um sem fim de corredores. E toda pessoa tem cantos aonde ninguém vai. Nem mesmo a própria pessoa.

Melhor então percorrer a si mesmo, explorando a solidão, nossa condição mais nua? Tentar encontrar-se é menos perigoso? Melhor entremear-se por florestas, que não são senão nós mesmos, como o fizeram Rousseau e Thoreau?

Retirar-se de alguém, fazer o caminho de volta? Quando se trata de pessoa, ter caminhado uma parte não garante o conhecimento do retorno. É a natureza do labirinto e não há princesa que nos presenteie com seu fio. Voltar pode ser muito, muito doloroso. Quase sempre o é, porque os retornos não têm precisão.

Nem sempre nos labirintos pessoais há os monstros que pensamos encontrar, mas haverá sempre alguns outros ou muitos outros. Toda pessoa tem minotauros, górgonas, esfinges, quimeras e hidras dentro de si. Pedras que se chocam e esmagam os passantes. Turbilhões que fazem naufragar os mais intrépidos navegantes. Porões enormes e escombros que nos podem surpreender agudamente. Percorrer alguém, mesmo sendo só tentativa, é capaz de envenenar o resto das nossas vidas.

E não haverá Sibila, nem poeta, nem um pai cuidadoso que nos guie. Percorrer uma pessoa é um ato solitário, quase tanto quanto percorrer a si mesmo. Mas há uma diferença gritante. Quando nos percorremos estamos nus, mas, para caminhar os outros, recorremos aos panos, aos couros e às vezes até às armaduras de metal e aos coletes à prova de bala. Percorremos os outros, quase sempre, munidos de escudos.

Talvez o contato com os recônditos alheios fique ainda mais difícil por causa das nossas defesas. Por causa do nosso apego insistente ao nosso modo de ver as coisas. Talvez as nossas vestes nos pesem, as nossas defesas nos enganem. Quem sabe até a nossa vontade de que o outro seja quem pensamos impeça-nos de entendê-lo um pouco mais como ele realmente é.

A portinhola. Talvez as pessoas todas devessem preservar as portinholas. Se quero entrar em ti, tenho de amoldar-me. Tenho de largar as vestes, as armaduras, os coletes, as burcas, os lenços. Devo entrar em ti nuamente, como se em mim entrasse, para me encontrar. Devo entrar em ti de mãos dadas contigo, e não solitariamente. Devo entrar em ti com a tua permissão, nunca antes de ela me ser dada. Para conhecer-te um pouco, devo abster-me de violar-te.

Mas… Como é difícil, não?

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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